A Geada-dente-de-cão

Geada -dente-de-cãoHá já bem munto tempo que nã via geada-dente-de-cão cmo esta…

Nã sê se vomecêas já alguma vez viram geada ó não. Calhando, munto menes viram daquela de dente de cão, qu’ era coisa que, qondo ê cá era môce-pequene, caía muntas vezes.

Alembrí-me a falar disto premode um caso que se dé com-migo, inda há bem pôco tempo, numa volta quê cá fui dar com a minha Maria e mái uma carrada de famila. Foi-se numa excursão queles fazeram paí no Intrudo pa quem quesesse ir ver as Grutas d’ Aracena e dar pre lá umas voltas à pata.

Aquilo iam pa lá coisa dumas trinta ó qôrenta pessoas, más um menes um, tudo munto adevertido e fêtinhos pa dar à perna, mái atão o tempo nã corré à nossa fêção e só no permêro dia é qu’ inda andemos quasequer coisinha de jêto. E, méme assim, com um geadão, uma coisa temente…

Alevantamos-se de manhãzinha bem cedo, rapimpamos-se com um quebra-jum queles deram lá na pensão – aquilo era quái à descrição, ora, hôve menino qu’ incheu a pança logo pô dia entêro… – prantaram com a famila toda drento da camineta e foram largar a gente a umas belas cinco ó sês léguas de lonjura.

Geada-dente-de-cãoEra preciso ter munta conta pa nã se dar algum escorregão…

Tã penas abriram a porta da camineta, ê cá fui logo o premêro a sair que, com a barrigada que panhí ô café, já nã ia lá munto bom cá pe drento. Nã é quê use a nã prosar, quisso a minha Maria é que l’ acontêce quái sempre, mái o chòfer dava as curvas qu’ até zunia e, atão, béque-me sintia já assim umas ãinsas e, dora im qonto, até me vinha assim – com lecença da palavra – um gole à boca.

De manêras que saí logo de rompante, panho aquele ar frio qu’ até cortava, digo pra mim:

– Ai que barbêro quele tá aí!… Minhas belas orelhas!…

E, dezer a verdade, inda joguí assim a mão a uma e quái que me parceu quela tava a incurrascar. E a ponta do nariz?!… Ai a ponta do nariz, mês belos amigos!… Nã sê se me doía se nã na sintia…

Mái nã foi sol de munta dura quê cá desqueci-me logo disso tudo. E isso premode quem? É que dí com os olhos numas tôiças que tavam logo da bandinha de lá da valeta, tudo branquinho. Nã é quê cá nã tevesse já repairado, durante o caminho, que tinha caído um geadão marafado e tava tudo esbranquiçado, mái daquela ali já há mái que tempos quê nã na via…

– Nã vês, Maria… Olha lá pra isto!… Esta é de dente de cão!…

– Õi!… Que frio!… Olha lá, sê calho a nã trazer o mê barrêtinho de lã pa pôr na cabeça…

Geada-dente-de-cãoCada passada quma pessoa dava ôvia a geada a se esmigalhar debaxo dos pés…

E, inda mal nã tinha acabado de falar, já o tava a infiar na cabeça até ô canto de baxo das orelhas. Já do mémo nã me pude ê gabar que nem pensí im tal coisa. Sim, quê cá podia munto bem ter levado o mê boné d’ orelhas e tava governado… Mái dêxí-o im casa. Alguma vez ê cudava dir dar com uma coisa daquelas assim tã desviado do monte?!…

O resto da famila que saíu à última da camineta tamém se foram aconchigando com os agasalhos que cada um trazia, mái faziam todos uma clamada qu’ até dava dó. Menes um que vinha lá no banco de trás – tenho tado aqui a ver se me descorre o nome dele mái nã m’ alembra. Esse, más um nada, fecava fechado drento da camineta. Aquilo foi méme à escapúla…

Pro jêto, o homem tinha perdido a nôte, assantô-se lá no banco de trás sozinho, ferrô a dromir, já tinha tudo abalado a andar qondo ele acordô e se viu na camineta sem companha. Desatô a bater no vrido e a chemar pra gente, vá lá qu’ inda hôve quem desse por ela…

Saíu de lá, vinha béque-me mê insampado, deu uma carrêra à mecha toda, aparô um coisinho à minha frente e desata a lambarear. O que me havera d’ acabedar… Logo a mim que queria tirar retratos e nã me calhava nada ir ali a tramelear fosse lá com quem fosse. Vá lá quele, logo a seguir, virô-se pô ôte lado, ia uma moça toda jêtosa ali sozinha, fecô todo crençoso com ela e desquecé-se de mim.

Campo de castanheiros (Castanea sativa)Pro jêto, os castanhêros gostam destes sitos adonde faça frio com fartura…

Ora ê cá aprevêtí logo o atopo, ponho-me a andar ali prê fora a tirar retratos à manadia que foi um consolo. Um consolo até que pisí uma pôça d’ água – cudava ê cá quera água… – e dí um escorregão. Olhem, aquilo, más um nada, dava tamém um bate-cu que ficava todo enlameado, más agarrí-me ali a um tróço dum castanhêro, enquilibrí-me e a coisa nã teve dúveda…

Já agora, pre falar im castanhêros, nã sê c’m’ les incarecer aquilo que pre lá vi. Andamos bem umas duas léguas – pra más que pra menes – e nã se via ôutra coisa que nã fosse tal arve. Mái, nã cudem, tudo alvoredo desposto im carrêras c’m’ deve de ser, tratados a tempo e horas e tudo munto mái velho do quê cá ó vomecêas…

Ora mái velhos… Até me dezeram que tavam lá alguns que, se nã tevessem duzentos anos, pa lá caminhavam… E ôtra coisa: ali ninguém corta uma arve daquelas ó a trata mal. Nã senhora. Nem que seja pôs podar, premêro têm que pedir lecença lá a quem manda naquilo. Calitros?!… Isso pre aquelas bandas nã há tal peste…

Calhando mecêas nã se fiam em mim, podem cudar quê cá tô a abusar, mái tejam certos qu’ aquilo é uma coisa quái do ôte mundo. Im tamanho, im tar bem arrenjado e im qôlidade. Fiquem sabendo que, méme nesta altura, inda panhí lá umas castanhitas per aqueles charazes e tavam quái todas boas pa quemer.

Campo de castanheiros (Castanea sativa)Im castanhêros, nunca tinha visto uma coisa assim. Grandes, bem tratados e muntos…

E boas quelas eram… Despôs d’ incher a barriga é que me vêo à idéa uma coisa: já haveram d’ andar um coisinho chafurdadas dos porcos brabos – javalis, le chamam… Mái já me tinha rapimpado com elas e bicho nã tinham… E que tevessem. Nã se usa a dezer que ‘bicho quê como nã me come ele a mim’?…

Pôs, nã sê se mecêas inda tã alembrados – os mái velhos cmê cá, quos mái nôvos, esses não – já hôve tempo qu’ aqui na nossa Serra tamém havia muntos castanhêros e a famila pôco mái cmia do que castanhas.

Batatas nã as havia, pão munto pôco, vá lá umas bejoarias quem as tinha, e, atão, eram as castanhas qu’ andavam sempe pà frente. Pa nã apodrecerem, até se gôrdavam com todo o precêto. Inda m’ alembra do mê pai – que Dés o tenha… – as interrar im arêa seca drento dum corcho e, em sendo preciso, ir-se lá desinterrá-las…

Gruta das Maravilhas - AracenaAtã nã vêm este lindo serviço?… Iste é béque-me o retrato do que há lá drento das grutas…

Mái, calem-se aí!… O melhor inda tava pra vir…

Ô fim da viaja, em chigando lá a esse tal sito adonde há as tales Grutas d’ Aracena, vinha já com os bofes de fora, assantí-me no premêro banco que me parceu na frente lá num jardim.

Logo, nã dí pre nada. A minha Maria assanta-se na ôtra ponta do banco e dá im me dar sinal

– Diz lá o que queres, melher…

E ela, nada… Só apontava pàs costas do banco e dava assim uma carcachada de gozo…

Até que se resolveu:

– Atã nã vês?!… Olha lá bem praí…

Olhí mái nã alcançava quái nada. Pus as minhas cangalhas, olhí melhor… ai, mãe! dô com aquele desenho que tá ali no retrato… Até me fiz incarnado, com vergonha!…

Nisto, vinha chigando a minha quemade Questóida más o mê compadre Jôquim do Barranco que tinham fecado pa trás… Dô um salto, fequi logo assantado ô mêo do banco munto bem incostadinho a tapar aquela trugia que tá no desenho pa eles nã verem…

Um dia que calhe, logo les conto o resto que se passou a seguir. Tá bom de ver qua minha Maria e a quemade Questóida, marafadas c’m’ são, puseram-se logo a mangar com-migo e fazeram um cagaçal do pior…

E pre qui me fico.

Passem bem e até que Dés quêra.

Tocadores de fole e Artechique – 2010

Tocador-de-concertinaTal acham esta concertina? E inda toca melhor que muntos foles modernos…

– Se nã vieste à festa dos tocadores de fole, nã sabes qonto perdeste!… E à Fêra do Artesanato tamém. Más ê cá, dezer a verdade, gosto mái dos toques de fole que do resto…

– Ai nã fui… A si é quê cá nã no vi lá. Fique sabendo que nã perdi nem uma moda. Fui bem cedinho, assantí-me numa cadêra e vi aquilo tudo do prencipo ô fim.

– Ai teveste assantado… Qualquer um nã tem essa sorte. Tá bom de ver que só panha lugares desses quem tenha pazes com a famila lá da Junta… Nã é verdade, Refóias?… – E piscô-me o olho, a ver sê cá l’e dava os améns.

Isto era a conversa quo Martinho do Almarjão tava a ter com o Tóino Luzicuco, uma tarde destas, ali memo no Largo dos Chorons, qondo ê cá lá passí caminho além da loja do chinês a ver se dava lá com uma farramenta quê cá tinha preciso pa um serviço que já tenho aqui há que tempos pre fazer.

O quê tinha fêto bem era nã ter levado repáiro neles, fazer de conta que nã nos tinha visto e ir fazer o mê governo, mái as coisas são cme são e, atão, lá les dí uma vaiazinha, méme me parecendo queles tavam os dôs um coisinho escorvados. E tavam mémo. Mòrmente o Tóino Luzicuco qu’ abalô do Alferce logo de manhão e, até àquela hora, inda nã tinha comido coisíssema nenhuma. Só bobido.

Adelino Cruzinha - Tocador-de-foleO amigo Adelino ‘Cruzinha‘ toca cá umas modas quaté dá gosto…

– Atã, digam-me lá uma coisa: no fim de resto foram os dôs ver os homens tocar os foles ali no Encontro de Acordeonistas ó só foi um ó nã foi más é nenhum?…

– Foi-se os dôs, sim, Refóias. Ê cá é que tava a mangar aqui com o Tóino, a ver s’ ele tinha dado pre mim lá, mái vi logo qu’ ele tava tã emprensado lá na tal cadêra da Junta que nem olhava fosse pa donde fosse a nã ser pôs tocadores…

– Atão?… Queria quê cá andasse a ver so lombrigava lá no mêo daquela famila toda?… Era o que faltava!… Ê fui lá foi pa ver eles tocarem aquelas lidessíssemas modas nos foles…

– E nem repairaste im mim que tava ali incostado à parede pa me furtar à soalhêra. Tu cme tavas ali à sombra das tilêras…

– Tevesse ido mái cedo que panhava tamém um lugar cmô meu. E nã era preciso ter pazes com a famila da Junta quê cá tamém nã tenho…

Dezia o Tóino a fazer-se munto sentido ô mémo tempo que largava a mão do tróço da tilêra adonde tava incostado e dava um gangueão tã grande ó tã pequeno que quái que dava uma marrada no Martinho do Almarjão.

Jovem tocador-de-foleEle há prí uns mecinhos nôvos que tamém já tocam quasequer coisinha…

– Quem nã tem sê eu. Agora tu, nã sê, nã sê… Mái chega-te pra lá nã me faças pr’ aqui bater a apèraja. Nã vês que quái que me ias pisando a bota e ê tenho aqui um calo que nã pode ser trelhado…

Respondeu o Martinho já um coisinho infèzado, béque-me quái com o sãingue a le chigar às ventas. Atalhí logo:

– Nã te marafes, Martinho. O homem nã fez isso d’ aprepósito… Mái já que vieram os dôs ver os tocadores, que tal acharam?… Ê cá só vi praí uma àmetade. Tive um impendiclo…

– Sê cá se vieste, Refóias. Atã ê cá nã te cheguí a ver prí… E, despôs das modas, inda m’ assomí ali às barrecas do artesanato e tudo…

– Tanto que vinhe qu’ até tenho lá im casa uma mêa-dúiza de retratos pa apresentar, méme ruins… Nã vês, Martinho, aquilo tava uma soàlhêra qu’ até quem-mava, incostí-me ali a um cantinho à sombra com a minha Maria e dali nã saí senã qondo tive precisão disso.

– Atã e nã amostras isso à gente?…

– Olha, pede aí a quem quereres que t’ as amostre qu’ elas vão ser todas postas na internet. Aquilo dos computadores qua gente dá visto lá tudo o que quer e o que nã quer… Tá num sito alomeado pre ‘Vídeos do Refóias’ e ‘Galeria do XXIII Encontro de Acordeonistas’.

– Ó amigo Refóias, atã e ê cá tamém posso ver isso ó quem?…

Artesãs de trapologiaCom trapos velhos tamém há quem faça coisas bonitas. Cmo estas da parenta Marí Júlia…

– Olha, Tóino, em te passando essa pelhega tamém dás visto. Agora já, calhando, é melhor não. Sabes que jêto? É que, da manêra cme tu tás, o mái certo é veres tudo ôs pares e fecares inda más almareado…

– Almareado, ê cá?!… Olhe pra isto!…

E, béque-me, fez a amenção d’ alevantar assim o pé, cme quem quesesse fazer um quatro pa amostrar que nã tava escarado. E o qué que se deu?… Más um lóre pô lado do Martinho que, se nã é ele le jogar a mão à manga da jaqueta, tinha-se espatarrado no mêo do chão…

– Atã e com respêto ô artesanato – que dos tocadores já vi que gostaram os dôs munto, méme sem me contarem – tamém foi alguma coisa de jêto?

– Ora se foi… Tinha ali uma barreca adonde vendiam umas emperiais, tava méme fresquinha a marafada da cerveja… Comprí uma chôricinha pa acompanhar, nã le digo nada…

– Ê vi logo qu’ era praí que tu imbicavas… Pô lado lá daquelas coisas tã bem fêtas qua famila tinha lá pà gente bispar, isso, tá bom de ver, nã parceste…

– Atã cmé quê cá tinha tempo pa tudo?… Se tava numa banda nã tava nôtra. Só se tá adonde se parêce…

Salta logo o Martinho:

José Inácio Rosa (José 'Ilídio' para os amigos) artesão de vimeO amigo Zé Ilídio tamém impalhô uns garrafanitos aqui na Artechique…

– Nã senhora, ê cá tamém vi lá isso… Até tava lá uma parenta tua com umas coisas quela faz com trapos. Umas bolsas, umas toalhas, aventás e tal e tal… E, olha, pa te falar verdade, aquilo até que tava muntíssemo de bem fêto. Nã sê cmé quela arrenja pacência pa tanto…

– Ê cá tamém vi…

– E nã era só ela. Tavam lá mái umas duas ó três com o mémo. Tudo munto jêtoso. E nã era só isso…

– Pôs não…

– Atã se sabes, diz lá tu, Tóino… O qué que tava lá más?…

– Ora, tavam ôtras coisas…

– Ôtras coisas, ôtras coisas…

Tu nã passaste da barreca da cerveja pà banda de lá, cmé que tu há-des saber…

– …

– Viste a verga? As cadêras de tisoira? E prí fora?…

– Atã nã havera de ver?!… Vi tudo, sa senhora…

– Inda agora dezeste uma coisa, agora dizes ôtra. Vai más é indròminar ôtro…

Encontro de tocadores-de-foleA Senhora Presidenta da Junta é que foi dar as lembranças ôs tocadores de fole…

E a conversa inda tava pa durar sê cá nã tevesse mái nada pa fazer. Mái cme nã tava pa perder o mê governo, despedi-me e fui andando. Tamém, nã tenho precisão nenhuma de falar mái nada da Artechique que mecêas foram lá todos ver aquilo e, atão, é melhor nã nos tar a impertenecer. Mái que aquilo tava do melhor, lá isse tava. Nã les parêce?

Agora, querendem, podem ver alguns tocadores de fole e más alguns retratos da Artechique. É só acalcarem aqui na Galeria dos Vídeos do Refóias e na Galeria do XXIII Encontro de Acordeonistas.

Ó atão, vejam logo aí prebaxinho e oiçam umas modinhas à manêra.

Fiquem-se com Dés.

Em ‘Noite de Reis’ tamém se cantaram as ‘Janeiras’ – 2011


Jolda 'Os Amigos da Fóia'‘Os Amigos da Fóia’, fardados com o sê bonézinho deles, nem sê o que les diga… Sã do melhor que possa ser e haver…

Inda agora aqui cheguí
já les vô a prècurar
se tã bonzinhos de saúde
dã lecença dê cantar…

– Ó parente Zé, cantar o quem?!… Isso foi ontem à nôte. Hoje já é Dia de Rês e, daquem nada, é solposto…

– E quem é que le diz o contráiro?… Sará de caso quê cá já nã possa arremedar aqui um coisinho daquilo queles cantaram, a noite passada, lá no café da Fonte dos Chorons?…

– Poder, pode. Mái que mechas de estilo é esse que mecêa usa qu’ até faz cocégas nas orelhas duma pessoa?!…

– Lá sabe vomecêa um estilo melhor… Cante-o lá quê cá sempe gostava de ver. Vá, parente Jôquim, vá. Mostre lá a sua vertude!…

Isto era a conversa do parente Zé Caçapo, o ‘Verruma’ le chamam, com o mê compade Jôquim do Barranco, im Dia de Rês, os dôs afincados a buber uns copinhos ali no café de cima, já im mêa tarde, qué que me quem diz, quái à noitinha, qu’ isto, agora, os dias nã sã nada. Tã penas o sol cmeça a decer, assim se põe, im menes dum foguete.

'As Figueirinhas' e 'Os Amigos da Figueira'Lá de baxo, do Algarve, vieram ‘As Figueirinhas’ e ‘Os Amigos da Figueira’. Que bela jolda..

Pro jêto, tanto se faz um cmo ôtro, tinham ido, na ôta noite atrás, ver as joldas que vieram ali ô restairante da Fonte dos Chorons cantar os Rês. Os Rês e as Janêras, qu’ isto, agora, já a famila nã tá pa se dar ô trabalho d’ andar aí de porta im porta a cantar tal coisa, na passaja do ano e na nôte de rês, às tensas de le darem um convindado que vá nem venha… E, atão, fazem tudo pre junto.

Ora, a Junta arrenja manêra da famila s’ ajuntar ali no dito restairante e, quem quêra, dá o nome e vai lá cantar. Aquilo, com jêtinho e nã dêxando a coisa munto pô fim, cmê cá fiz desta vez, inda se panha uma felhòzinha pa dar ô dente e um calcesinho de melosa pa alimpar as goélas. Premode, tudo dado pra Junta. E fazem eles munto bem. Que nunca le dôia as manitas…

Pôs ê cá tamém parcí pre lá este ano. Mái fui sòzinho qua minha Maria nã teve jêto de largar o monte e fecô im casa nã sê se dando pontos ó fazendo ôto governo quasequer. Ô certo, ô certo, é quê cá, quando chiguí a casa, já bem de madrugada – era quái uma hora, nã cudem… – já ela tava, munto bem sa senhora boa vida, espatarrada im cimba da cama, a dromir, com a telvisão num barulho parvo. Mái, em ela tendo sono, nem que passe o comboio…

Jolda da LudotecaOs meçalhos da Jolda da Ludoteca tamém já cantavam qualquer coisinha. E tava lá uma mecinha qu’ era munto ingraçada…

E, vai daí, até qu’ aquilo foi uma coisa quê cá gostí. Más olhem que gostí ô bem fêto. Parceram lá umas joldazalhas de mecinhes e tal… quma pessoa já sabia que nã era coisa prí àlém, más é bom qué pa ver sos nôvos nã dêxam perder estes questumes qua famila tinha nos tempos dos avózes deles – que sô ê cá e ôtros cmo eu.

Mái tamém parceram lá ôtres, mormente duas joldas, qu’ eram de ver e chorar pre más. Olhem, uma vêo da Feguêra, lá de baxo, do Algarve. Tinha duas joldas masturadas. Uma de melheres, ôtra d’ homens. Foi uma coisa da pontinha da orelha!… Dava gosto, mês beles amigos. Assim, sim!… Chemavam-se ‘As Figueirinhas e Os amigos da Figueira’.

A ôtra, era de cá. Sã ‘Os amigos da Fóia’. Ah môces marafados!… Té se m’ arrepiaram os cabelos… Desataram a cantar ‘Os Rês’ – queles, atão, nã cantaram ‘As Janêras’ – nunca tinha visto uma coisa assim. Os apontadores eram do melhor, os foles eram uma classe, o estilo era do antigo, e os cantadores cantavam que nem passarinhos… E, nã cudem, tinham farda. Trajavam todos de boné igual…

Havia filhós de ofertaCom um boné destes, uma felhó que nem um capacho e ôvindo joldas a cantar ‘Os Rês’, quem é que nã há-de tar sastefêto…

De manêras que, cmê cá já falí lá atrás, com aquela enfluêinça de ver tudo munto bem sem perder coisíssema nenhuma, fequí sem felhó. Uma mecinha que tava lá à porta da antrada, qondo ê cá chiguí, bem me dé um papelinho e disse-me assim ô ôvido:

– Em l’ apetecendo, apresente-se ali ô balcão com este papelinho queles dã-le uma felhòzinha e um copinho de qualquer coisa. É pre conta da Junta…

– Tá bem – disse ê cá – e Dés le pague m’t’agradecido.

E fequí-me a lember, uma preçanada de tempo, sempe com o fito na felhó e no tal calcesinho dela. Quê cá, atão, béque-me melosa nã gosto munto. Isso é bobida mái de melher. Agora, um calcesinho dela, da boa, isso cai que nem ginjas!…

Mái qonto mái me lembia, mái perdia… Ê cá havera era de ter ido logo lá tratar do caso. C’m’ nã fui, barimbí-me… Im vez disso pus-me a bispar tudo de fio a pavio… atrás duma jolda vinha ôtra, ora… qondo dí pre mim foi já no fim, já ‘Os Amigos da Fóia’ lá iam pra rua afora e ê cá atrás deles. Aí vê-me a felhó à idéa, abalí a fugir ô café, cheguí lá todo escalfado e prècuri à mecinha que tava do lado de drento do balcão:

Jolda do CNE e das Guias de PortugalO CNE e as Guias de Portugal apresentaram-se com esta jolda. Dá gosto ver qos nôvos tamém aprecêam estas coisas…

– Menina, atã inda há prí uma felhòzinha cá pô Parente?

– Felhós?!… A uma hora destas?!… Ai, Parente, tenha pacênça mái já nã há nada disso… Atã, agora é que vem?!…

– Olha que cachamorra esta… Atã ê cá cudava que, em tendo uma senha destas na mão, fecava sempe aí uma f’lhòzinha gôrdada pra mim…

– Põs era pa tar, era… Mái, atão, a uma hora destas, o qué que mecêa quer… Méme que tevesse sobrado alguma, já a gente tinha qua ter jogado pô balde das lavaduras…

– Nã me diga que jogaram a minha?!…

– Alguma vez?!… Onde sará quela vai a estas horas… Calhando, já tá até desmoída e tudo…

– Ai a minha pôca sorte!… Minha bela felhòzinha… Atã sê cá sabesse disso, nã tinha vindo logo aprevêtá-la assim que chiguí?!…

– Atã, pronto. À ôtra vez, já sabe. Nã se ponha a pôco qué pa nã dar nisto. E tome lá uma calcesinho de melosa pa nã perder tudo…

– Melosa?!… Nã pode ser de madronho, menina? É qua melosa é ruim pôs diabêtes. Quê cá, graças ô Devino Pai, nã tenho tal mal, mái quero-me furtar a ele…

– Atã, vá lá um copinho d’ aguardente…

E lá me deu um copinho. E, d’ agora im diante, mês belos amigos, nunca mái caio nôtra. Tã penas lá chegue, passem pra cá o que me acabedar…

Jolda improvisadaEstes meçalhos nem nome tinham. E tamém nã cantavam nada que se dezesse benza-te Dés. Mái que eram bem caçados, lá isse eram…

Mái dêxando isso pa trás das costas e desquecendo uma desfortuna tã grande que foi um homem fecar sem felhó em Noite de Rês – vá lá, vá lá qu’ inda panhí o tal calcesinho dela – sempe les digo que coisas destas – a alembrar os nossos usos e questumes – nunca haveram d’ acabar…

E, isto, agora, é só uma conversa. De parvo, tá bom de ver… Mái, cá pa mê gosto, inda gabava de ver a nôte de rês sem aquela aparelhaja que tava lá no café. As joldas a cantarem c’m’ nôtres tempes. Sem alte-falantes, nem nada. Tenho cá pra mim, quera melhor. Mái a Junta é que sabe…

E tamém gostava de ver o qué qu’ ‘Os Amigos da Fóia’ eram capazes de fazer se tevessem um axilozinho da Junta ó da Cambra pa nã dêxarem este questume das janêras e dos rês levar semiço. Nã era preciso grandes coisas. Mái, cmá senhora Presidenta já me disse qu’ ia pensar no caso, posso dromir im sossego.

Agora, ôtra coisa. Ê cá tirí pa lá uns retratos e uns videozalhos. Fecô tudo uma prequêra, que, à uma, o artista é fraco, e, à ôtra, tava tudo munto pertado e às ‘scuras. E, agora, inda pre cimba, há uma remessa de dias quê cá ando a ver se dô posto aquilo no YouTube e o YouTube béque-me nã quer arreceber tal coisa.

De manêras que, vô-me pertando com esse tal do YouTube a ver se dô fêto alguma coisa dele, e, tã penas tudo teja arredondado, logo ponho aqui as ligaçons pa mecêas darem ido lá ver.

Os retratos já nos podem ver. Acalquem aqui na Galeria da Noite de Reis, fazendem favor.

E fecamos pre qui. Passem todos munto bem, com um ano intêro chêo de saúde e ôtras coisas boas e até qu’ a gente se veja.

A VI Corrida Fotográfica de Monchique – 2011


Vai um calcesinho dela?… Esta aqui prantí-a no tema ‘Gastronomia’

Antrô na Sexta Corrida
de Retratos de Monchique
voltô de cara caída
sem nada qu’ o justefique

nã ganhô prémo nenhum
foi béque-me um desperdiço
e anda prí um zum-zum
que fecô inzainadiço

foi pa lá fazer o quem
ia a filmar quái de gatas
nã vale nem um vintém
vá más é cavar batatas…

ó atão, pa devassar
assome-se à exposição
dos que sabem bem tirar
retratos de eleição.

O homem aventujando o milho antrô no tema ‘Profissões’…

Vejam só bem, mês beles amigos, o quo grandessíssem’ô estapor do Tóino Emilo – o ‘Moita’ le chamam, premode o homem ser narcido e criado na Desmoitada – nã m’ havera de fazer!… Tã penas le chigô ôs ôvidos quê cá nã tinha ganho coissíssema nenhuma na VI Corrida Fotográfica de Monchique, arrenjô logo estas quadras. Calhando, só pa m’ inzucrinar. Que lá gozão é ele…

Pre menes, foi o quo Zé Manel, o filho do mê compade Jôquim do Barranco, me contô. Quê cá, dezer a verdade, désna d’ há umas duas ó três semanas – pra más que pra menes – que nã no vejo e inda nã le falí no caso. Más, em o incontrando, logo le digo umas qontas. E daquelas quos cãs nã gostam!…

– Olha!… Nem d’ aprepósito… Àlém vem ele todo limpêro… Péra aí quê já le digo!…

Salta, logo, a minha Maria:

– Vê lá o qué que fazes praí!… Nã ofendas o homem… Olha que nã se sabe se foi ele…

– Ai nã se sabe… Atã o Zé Manel nã me contô?!..

Os castanheiros a dêxarem cair as folhas todas pra donde é qu’ haveram d’ ir? Pô tema ‘Outono’, tá bom de ver…

– Tejam pre qui com Dés, famila. Atã o qué que se fazem?…

– Ora o qué que se fazemos… Pràqui vamos…

Ramordí ê cá entre dentes, um coisinho, assim, com más modes, im reposta à conversa do Tóino. E ele, béque-me sintiu a ferroada, fez assim uns miécos de quem estranhô quasequer coisa. Más a minha Maria, sempre a querer atamancar tudo, falô-le, logo, munto bem:

– Venha com Dés, ti Tóino. Atã cmé que tem passado? Já há um belo tempo que nã parcia… Mái nã foi pre mal… ó foi?…

– Olhe, nã tem calhado… Mái, graças a Dés, nã tenho rezão de quêxa. Lá pro mê monte a coisa nã tem tado mal, nã senhora…

Ramordí ôtra vez, mái, agora, só cá pra mim:

– Adés minhas incomendas!… Queria-le dar uma desanda, cmé quê cá vô-me fazer isto agora?… A minha Maria meté-se logo de premêo…

Mái, vêo-me assim uma rabeada ô de cimba, digue-le, com os mémes más modes:

Esta, nã sê se fiz bem se fiz mal… Puse-a no tema ‘Caminhadas’…

– Atã e que tal de versos?… Des que têm andado prí a correr uns a mê respêto… Calhando, já passaram lá pro sê monte. Ó abalariam de lá…

– O qué que mecêa me diz, ti Refóias?!… Nã sê de nada… Fazeram-le praí alguma belareta?

– Nã sabe?!… Atã quem é que usa a tirar versos aí, pre tudo e pre nada, a isto e àquilo? Sô ê cá?…

– Ê cá tamém não… Só praí uma vez ó ôtra, já faz munto tempo, é que fiz umas coisalhas. Mái tudo sem emportãinça… Agora tirar-le versos a si, isso nem pensar!…

Ora nem pensar… Nã foi ôtro senã ele… Ê cá é que nã me podia adiantar, quo Zé Manel contô-me aquilo debaxo dum grande segredo… Mái, méme assim, inda voltí ô assunto:

– Atã se nã foi vomecêa, que jêto uma criatura me ter contado que mecêa sabia, já há uns belos dias, quem é que tinha e quem é que nã tinha ganhado os prémos daquela Corrida de Retratos que tá agora lá no ‘Espaço Jovem’ pa ser vista?

– E o qué quisso tem, ê cá saber uma coisa dessas? Ó ê m’ ingano munto ó anda aí a manita do Zé Manel, ali o filho do sê compade Jôquim do Barranco…

Esta aqui, atão, nã tem nada que saber. Foi pô tema ‘Religião’…

– Nã teja já com palpites, quê cá contí-le o milagre mái nã l’ alomií o santo… O Zé Manel nã é paqui chemado… Ê só gostava era de saber quem é que me tirô aqueles versos…

– Olhe, tamém ê cá… Mái lá queles tã fêtos ô consoante, lá isso tão… Mecêa nã fecô assim um coiseco infèzado dos ôtros todos le terem tirado a palhinha?… Atã, pronto…

– Qual infèzado nem mê infèzado!… Isso foi vancêa qu’ enventô tudo e pôs lá nos versos… Se nã fosse perquem, ê logo le dezia… Cuda quê que sô ceguinho e nã vejo logo que foi vomecêa?!… Nã têm mái nada que fazer, metem-se na vida dos ôtres…

– Ó ti Refóias, nã se marafe, home. Atã mecêa nã tem pre questume le dar assim essas gavierras e agora tá aí pior que escamungado premode uma coisa que nã vale nada?…

– Ai que nã vale nada!… Mecêa gostava que le tirassem uns versos destes, a fazerem pôrra de si desta manêra?… Gostava?… Diga lá se gostava, ham?…

– Atã nã havera de gostar?… Se fosse nestas condiçons, gostava…

– Já tá a fazer cachamorra de mim ôtra vez?!… Já nã basta o que basta?!

Pô tema ‘Lazer’, arrenjí esta…

– Nã se inzáine más quê conto-le a verdade, ti Refóias. Mái nã se parêça mal… Isto foi só uma parte quê cá e o Zé Manel le fazemos. Sem ser pre judêria… E ninguém sabe do caso a nã ser a gente.

– O quem?!…

– Sa senhora. Combinamos-se os dôs, ê cá fiz os versos e ele vêo-le contar c’m’ se fosse uma coisa que andasse já prí na boca do mundo… Mái foi só pà gente fazer aqui um coisinho de galhofa consigo e incher-se o papinho a rir.

– À minha conta!… Ê nã le acho é graça nenhuma…

– Agora, veja lá se vai logo amostrar isso a alguém…

E, nisto, parêce o Zé Manel às carcachadas drêto a mim. Atã nã é quos mariolas vinham combinados e ele fecô ali à ponta da casa a ôvir a conversa toda?!… E ê cá fui naquilo que nem um parvinho… Mái cmo eles sã boas pessoas, lá fecamos amigos ôtra vez.

E mecêas nã liguem ôs versos quo Tóino ‘Moita’ tirô qu’ aquilo foi só pa se meterem com-migo.

Querendem ver o resto dos retratos quê cá tirí, acalquem aqui na Galeria da minha VI Corrida Fotográfica de Monchique e vejam à vontade.

E vão tamém lá ô ‘Espaço Jovem’, ô pé da Junta de Freguesia de Monchique, ver a Exposição qué pa saberem o qué bom im retratos de Monchique. E é melhor nã s’ atrasarem munto qu’ aquilo acaba já no dia 25 deste mês…

Dés le dê saúde a todos. E pacência pa m’aturarem.

A Magnólia do Convento – 2011


Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)A Magnólia do Convento béque-me tá vai nã vai…

– Ó c’pad’ Jôquim, tenho andado im cudados premode àlém a Magnólia do Convento (Magnolia grandiflora). Olho pra ela e béque-me nunca a vi daquela manêra…

Isto era ê cá, uma tarde destas, lambareando com o mê compade Jôquim, os dôs assantados ali à sombra duma f’guêra dele, dêxando passar o tempo. À sombra, é c’m’ quem diz, debaxo dela, que folhas inda nã as tem. E à míngua d’ ôtre assunto mái jêtoso.

Ele, dezer a verdade, até que havia ôtas coisas qua gente bem podia conversar, qu’ isto agora, nã se fala senã na falta de dinhêro pre toda à banda e ôtas parvoêras dessa coisa dos partidos e tal e tal, mái cá a gente os dôs nã se metemos nisso…

– Olhe, tamém tenho levado repáiro que se passa p’ àlém quasequer coisa. O qué nã sê, mái qu’ ela tá com munto má cara, lá isso tá…

Nesse entrementes, parêce o ti ‘Verruma’ – o parente Zé Caçapo – tamém sem nada pa fazer e todo fêtinho pa vir sovinar a gente, cmo é uso dele.

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)Os tróços mái grossos tã a fecar tôdes podridos. E folhas… pôcas já tem e bem marelas…

– Logo agora quê cá vinha de boa avêa pa buber aí um calcesinho dela quo Refóias tevesse paí pa dar à gente… Daquela qu’ ele fez o ano passado… Nã é duma bagaja qu’ ele, ás vezes, usa a dar, que nem se dá bubido… Nem sê d’ adonde é qu’ ele acareô tal abobraja…

– E mecêa que nã viesse logo à pida e com conversas estragadas… Nã trôxe uma garrafinha lá da sua premode quem? Ó tem medo de s’ apresentar com ela?… Nã tem nada im ser pôco mái que frôxa…

– Ai frôxa!… Tomaram vancêas possuir um material daquela quôlideza… Tem vinte e um garantidos… Pra más que pra menes!…

– Atã trazesse-a pá gente ver isso… Mái vomecêa é mái fònica que sê cá o quem…

– Olhem, dêxem lá isso quê cá digo já ali à minha Questóida que traga uma garrafinha da minha e dê uma rodadinha à gente…

Saltô logo o mê compade Jôquim pa atalhar a conversa, nã fosse a gente se marafar p’ ali uns com os ôtes.

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)Inda nã há munto tempo qu’ ela era assim. Foi na era de 2007. No mês de S. João…

– Tava, atão, a gente, munto bem sa senhora boa vida, a falar a respêto da Magnólia do Convento qondo o parente Zé se pôs aqui a matinar com o raça da aguardente… Mái nã les parêce qu’ ela tá aqui tá despachada?…

– Nã me diga uma coisa dessas, home!… Uma arve daquelas com quái quatecentos anos…

– Quatecentos… é c’m’ quem diz… O que tá àlém na tableta é mái de duzentos…

– Atão e quatecentos nã é mái de duzentos?!…

– Nã se estique, parente, qu’ as ciroilas sã curtas…

– Qual o quem?!… Sempe tenho ôvisto dezer que quem na trôxe da Índia foi esse tal imbarcadiço que mandô fazer o Convento e despôs-je-a àlém, nessa ocasião. Ora o Convento foi inagurado… Qondo é qu’ ele foi inagurado, foi im…

– Nã sabe… Já vi que nã sabe!…

– Sê, sa senhora, más agora é que nã m’ alembra… Foi, foi… Olhe, nã me vem o ano à mimóira, mái foi pôcos anos entes da gente se ver livres dos Filipes. Qu’ isso sê ê cá muntíssemo de bem…

– Pôs foi. Foi im 1631. Agora se a Magnólia foi ó não despôsta nessa era é quê cá nã le sê dezer…

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)Agora, olha-se p’ às bandas do Convento e vê-se esta desfortuna…

– Que tenha sido nessa era ó que nã tenha, lá bem velha é ela. E até dá remôrses a qualquer um vê-la assim… S’ esse tal Pero da Silva que a despôs voltasse agora cá e a visse naquela miséira, dava-le uma coisa, pobrezinho…

– Ora dava-le… E, más a más, qu’ ele, tá bem qu’ andava de barco, mái nã era paí um marujo qualquer, c’m’ mecêa disse. O homem, pro jêto, representava ser lá o chefe daquilo tudo na Índia…

– Calhando… S’ ele era o vice-rê, alguma coisa havera de mandar… Mái qondo se vi inrrascado no mar e aprometeu que, se escapasse, fazia o Convento, aí nã le servia de nada mandar…

– Olhe lá, parente Zé… Aí há uns quatro ó cinco anos, nã le tinha já caído uma grandessíssema pernada com o vento?… Tinha, nã tinha?
– Pôs tinha. Era quái do tamanho desta feguêra. Sem tirar nem pôr…

– E ele des que hôve um que a foi lá serrar e carregô-a pa fazer fogo im casa. Nã taria sido vomecêa?…

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)Faz três ó quatro anos, inda dava gosto olhar pra lá…

– Olhe lá, cuda quê sô dos sês ó quem?!… Ê só panho lenha adonde me pertence. E tenho lá munto pre donde escolher nas minhas sobrêras…

– Nã se inzáine, parente Zé!… Ê tava só a prècurar… Más aquilo, calhando, inda dé uma bela manchinha de lenha…

– Atã isso sabe-se…

– E nã les parêce que, se nessa altura, tevessem fêto alguma coisa, nã tinha nada im a arve, agora, tar nôtas condiçons?…

– Sê cá!… Ela já é tã antiga…

– Mái nã se tinha perdido nada im ter dado àlém um jêtinho àquilo, nã era dêxarem andar àlém o gado a estrumar daquela manêra e a arrojar aquela terra toda pra baxo c’m’ dêxaram… Já com o Convento é o mémo. Inda há-de cair dum todo…

– Olhem, mémo assim, inda tenho fé qu’ ela vá arriba… Nã sê que jêto, mái tenho aqui uma coisa que me diz que sim…

– Vai arriba, vai… Ê nã vô é lá pa debaxo dela, entes que me caia uma pernada daquelas im cimba do lombo e arrebente com-migo…

– Lá nisso nã dêxo de le dar os àméns. É preciso munto cudadinho nã vá um homem levar àlém uma tarôcada im forte…


Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)Des que tem mái de duzentos anos. Pôs tem. Calhando vêo da Índia há uns quatrocentos… É o que tenho ôvisto dezer…

– Más ê cá, dezer a verdade, o que me dá mái pàxão é ver o vivente más antigo cá da nossa zona desparcer. E sem tampôco a gente saber que moléstia é qu’ ele tem. Inda más essa!…

– Ah isso é certo e sabido. Aquela arve é o vivente mái velho aqui desta serra toda. Nã tenho medo de dezer…

– Sósse aquela sobrêra àlém da Corte Grande ser inda más antiga. Sará?…

– Que jêto?!… Nã pense nisso!… Aquilo é uma sobrêra tamém munto valente, mái mái velha qu’ à Magnólia do Convento?!… Nã é, nã senhora! Cudo ê cá…

– De manêras qu’ o certo, o certo, é que a Magnólia do Convento tá com munto má cara e quem sabe lá o qué que se vai dar com ela. Más, agora, descorré-me aqui uma coisa da cabeça:

Esse tal amigo Pero da Silva nã sê se tá no céu se tá no enferno, mái cudo que teja no céu qu’ o homem fez o Convento e despôs a Magnólia, bem murêce… E, atão, tendo lá pazes com Dés Nosso Senhor ó com um Santo daqueles que mandem qualsequer coisinha, bem podia meter lá um empenho pa ver se a Magnólia inda nã ia desta…

– Faça isso, mê belo amigo Pero da Silva!… Fale aí com quem munto bem le dê jêto e nã dêxe a gente fecar sem a nossa Magnólia que mecêa despôs logo prebaxinho do Convento…

E vomecêas fiquem-se com Dés e até qua gente se veja.

α — ω

Nota: A Magnólia do Convento acabou por secar e morrer sem que nada de útil tivesse sido feito atempadamente para evitar esse ‘desastre’ ecológico e histórico para a nossa Região de Monchique.

Durante alguns anos, restaram o tronco e alguns galhos secos a testemunhar que ela existiu e a avivar a nossa tristeza por sabermos que morreu.

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)Citando o grande dramaturgo Alejandro Casona, ‘as árvores morrem de pé’!…

Será caso para acrescentar agora: depois, são abatidas…Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)

Só depois são abatidas…

Em Dia de Vera Cruz…

Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz - MonchiqueA Senhora do Pé da Cruz e o sê rico felhinho, pobrezinho, tôde fêto num frangalho…

Im Monchique, no três de Maio, dia de Vera Cruz, inda se usa a ir à missa à Igreja do Pé da Cruz. E, este ano, isso dé-se, c’m’ de questume. Ê cá fui lá más a minha Maria. E o Vergil Penusga tamém lá parceu. Mái só m’ incontrí com ele já no fim daquilo tudo, qu’ a famila era munta e a ermida nã é nada camposa.

Tamém, nã sê que jêto terem quái tôdes o mémo questume marafado de, à medida que vã chigando, im vez de se acomodarem lá pà frente pô pé do altar, ficar tudo logo ali ô pé da porta. Ora, os que chegam ô fim, c’m’ ê cá m’ aconteceu, têm que fecar ali da banda de fora… Ô sol, à chuva e ô vento, consoante o tempo que faça, tá bom de ver…

Dezer a verdade, desta vez, panhí ali uma soalhêra tã danada nos cascos que chigô a pontos q’ até cudava que já tinha os miôlos a fritar. E mái q’ uma pessoa ingrilasse lá pa drento, nã dava visto nada premode tar incandeado do sol. E, ôvir o qu’ o senhor Prior diz, só espetando munto bem a orelha…

Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz - MonchiqueA Vera Cruz, calhando, nã tem nada im ser esta…

– Olha o Vergil!… Atã tamém vieste à missa hoje? Mémo ô dia de semana?!…

– Que jêtes não?!… Foi sempe mê questume vir a esta festa, nã havera de faltar agora que já tô fêto num cangalho e, nã tardando, tarê qu’ ir prestar contas ô Criador…

– Cruzes!!… Mái que conversa é essa, primo Vergil?!…

Saltô logo a minha Maria, toda chêa de cagúifa, qu’ ela inda é um coisinho mái velha do que ele e alembrô-se que a hora dela tamém nã havera de tar munto longe…

– Eh’q, ê cá sempe gostí de vir à missa, mái dá-me uma gande paxão olhar ali pá imaja da Nossa Senhora com o filhinho dela no colo, morto e todo chêo de cortiladas… Olhem, désna da premêra vez qu’ aqui antrí, faz mái de cinquenta e tal anos, fequí com esta coisa na idéa…

Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz - MonchiqueEm Dia de Vera Cruz, abre-se a porta da Senhora do Pé da Cruz…

– Mái, dêxando isso da mão, nôtes tempes, isto nã era assim só uma missazalha, ô fim da tarde, pa mêa-dúiza de gatos pingados. Era uma festa c’m’ devia de ser…

– Pôs era. Mái atão, isto os tempos tão tôdes mudados. E munta sorte temos a gente d’ inda haver quasequer coisa…

– Lá isso é verdade. Mái c’m’ à coisa vai, nã sê, nã sê… Já repàiraste c’m’ é que tão ali as paredes da parte de drento da Capelinha?…

– Já vi, sim. Munto bem, até. Belarentas qu’ até dá dó e o cafelo todo a cair… Mái nã vás sem reposta qu’ isto já foi fêta há mái de 330 anos, mê belo amigo…

– O quem?!… C’m’ é que tu sabes disso? Ó tás a querer antrar com-migo?…

– Olha àlém pr’ àquela pedra pre cimba da porta e logo vês o qu’ é que diz lá…

Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz - Monchique…e, quái ô solpostinho, há uma missa p’a quem quêra lá ir…

E nã é que diz mémo lá qu’ a ermida foi fêta na era de 1680?… Aquilo custa-se a ler que, pra mim, é quái béque-me latim, mái foi um tal Afonso Anes qu’ ê cá nã les sê dezer quem ele era que mandô fazê-la e des qu’ a pagô da alsebêra dele. Bendçoado!…

– Pá idade que tem, até que nem tá assim munto velha… Nã te parêce, Vergil?

– Metôbrigado… Já foi arrenjada qontas vezes despôs disso?… Até já le prantaram ali umas imajas fêtas de cera pa le dar ôtros ares. Nã nas viste ali ô pé das janelas?

– Atã nã vi?!… A minha Maria prècurô-me s’ aquilo tamém sariam do tempo antigo. Mái, despôs, é qu’ a gente le descorreu qu’ elas eram das qu’ eles fazeram paí, o ano passado, na Semana Santa. Pa serem das deste ano, já tão assim um coisinho enravelhadas…

Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz - MonchiqueAquemedaram pa lá umas estátuas de cera fêtas o ano passado…

– Sã do ano passado, sim, qu’ ê cá sê que são. Elas tão assim tã enravelhadas nã sê s’ é premode calor que panham ali no verão ó se do qu’ é que é, mái uma coisa te digo, um destes dias inda derretem p’ ali todas. A pomba até já tem a asa aberta…

– Atão, s’ ela tá, béque-me, a querer voar, nã admira ter a asa aberta. As duas asas…

– Nã é isso, parente! Tem mémo uma asa esbroncada. Aquilo foi a cera que ressequiu e abriu uma fresta. Ó saria o artista qu’ a fez que quis dêxar logo aquilo assim?

– Só-se!… Alguma vez o homem ia fazer uma coisa dessas?!… Atã, eles tão dejando é de fazerem tudo o mái bem fêtinho que possa ser e haver…

– Olá!… Isso é o que tu cudas… Inda ontordia hôve quem me dezesse que lá no estrangêro tem havido quem faça mêa-dúiza de riscos num papel que ninguém sabe o qu’ aquilo representa e despôs dizem qu’ é um quadro do melhor e vendem-no pre uma fertuna…

Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz - Monchique… mái, andam, andam, inda elas se derretem sem ninguém dar per ela…

– Isso é os estrangêros que sã tôdes parvos. Agora a gente que somos escretos, nã se dêxamos ir atrás disso…

– Pôs é. Somos tã sabidos, tã sabidos que tamos c’m’ tamos…

E a conversa desandô p’ ô lado da política. Qu’ isto, agora, anda aí tudo enfluído com o falatóiro dos partidos. Uns que fazeram ôtros que nã fazeram, uns que fazem ôtros que nã fazem, uns que vã fazer ôtros que nã vã fazer. Mái esses assuntos nã são pr’ aqui chemados.

E, atão, munta saudinha pa tôdes e até ôtro dia.

Dia da Espiga 2011


Dia da Espiga 2011 MonchiqueA mêo da manhã, lá abalí caminho do Barranco dos Pisons com a famila da Junta…

Mái uma Quinta-fêra d’ Às-sunção, mái um Dia da Espiga. E quem é que nã havera d’ ir pô coçáiro num dia destes?!… Atã ele até é o feriado cá do nosso concelho… E digam-me lá se nã foi uma coisa bem pensada? À uma, que sempe tevemos este questume – quer-se dezer, más as melheres quos homens… – de s’ ir prí panhar flores pa fazer o Ramo da Espiga. À ôta, calha sempe ô dia de semana – quinta-fêra…

Dezia-me o parente Tóino Rabaça, uma tarde destas, – foi demingo passado – àlém no adro da igreja, contando-me que a melher dele, a parenta Larinda do Tòjêro, tã penas chigô a casa, nessa tarde de quinta-fêra, assim pindurô o Ramo da Espiga pe trás da porta da antrada e aventujô o ôtro que lá tinha do ano passado:

– Se nã fosse isso, cmé quma pessoa, despôs, tinha saúde, sorte e fartura tôdô ano?…

– Pôs, pôs… E alegria, tamém. E o qué qua gente fazia, em se vendo aflitos premode os trovons?…

– Inda más essa. É qu’ aquilo, em fazendo trovons, uma pessoa quem-ma um pèzinho daqueles – prexempes, um coisinho d’ olvêra – e já nã cai nenhum prigo adonde a gente teja…

Dia da Espiga 2011 MonchiqueE ia tudo munto advertido…

– Tal e qual, parente. Sem tirar nem pôr, foi o que se dé com-migo, inda este enverno. Uma ocasião, já bem de nôte, vem um trovão, ôvi-se aquele grande barrano, a minha Larinda, qué do mái medroso que possa ser e haver, panhô uma rabana tã grande ó tã pequena, abala a fugir da cama drêto à casa de fora, nã tardando nada, já ê cá me chêrava a chamusgo…

– Quem-mô-se nalguma brasa do lar ó o prigo tinha caído lá?…

– Nã senhora, parente!… Foi bescar a caxa de forfes, puxô fogo ô Ramo da Espiga, aquilo tava já bem munto seco, alô im menes de nada…

– Atã dé fim dele todo logo duma assantada…

– Olhe, quái que dava… Mái, dezer a verdade, ê cá tamém m’ alevantí logo atrás dela, dí-le uma manita e inda le salví uns qontos panascos…

– E os trovons, parente? Desparceram ó quem?…

– Inda soô ôtro, bem forte, ali pô perto, mái a gente usa tamém a pedir logo à Santa Bárba e demos im ôvi-los lá mái pô longe…

– Santa Bárba bendita, que no céu tá escrita e na terra abençoada…

– Foi isso mémo, parente Refóias. Foi isso mémo… Aquilo, a santa Bárba, é uma santa que nunca falha. Em havendo trovons, reze-le sempe a oraçanita dela. E veja lá se já alguma vez me caíu algum prigo im cimba da minha casa. Nunca!…


Dia da Espiga 2011 MonchiqueDora im qonto, panhava-se mái uma florzalha pa compôr o ramo…

– Atã, daquela vez que mecêa inda morava lá na Chã da Mula Velha, nã se dé uma coisa dessas? Deziam paí, béqueme, que tinha caído lá um prigo…

– Mái nã foi im riba da casa, parente… Foi numa sobrêra que tava lá quái no bico do cerro, uma bela sobrêra, más inda era longinho do mê monte. Uma coisa assim c’m’ daqui àlém a S. Roque. Mái estramecé tudo, nã cude…

– Numa sobrêra, parente Tóino? Mái, atão, ê cá tinha idéa que foi num madronhêro…

– Eh’q!… Sósse caíu mái algum im tempos quê cá inda nã morava lá. A sobrêra até fecô toda arrachada e perdé-se e tudo… Aquilo antrô-le pro bico, vêo pro tróço abaxo im parafuso e meté-se pra terra adrento, veja lá…

– E a sobrêra caí logo fêta im fanicos?…

– Nã… Ela arrachô d’ alto a baxo, fecô com a corcha toda descolada do tróço, mái levô inda um belo tempo a cair pô chão. Premêro, secô-se. Despôs, passados aí uns três ó quatro envernos é quo tróço fecô todo podrido e ela amajulô no chão.

– Pro jêto, aquilo era um sito munto dado a essa coisa dos trovons…

– Ora se era!… Eles, béque-me, até atraíam lá. Havia quem dezesse que, drento do cerro daquela banda de lá, logo preciminho da pôça da Córga Alta, havia umas pedras que tinham azôgue e, atão, os trovons acudiam lá tôdes…


Dia da Espiga 2011 MonchiqueA mê do caminho, ó pôco más, já ele havia quem tevesse uns ramos mái vestôsos que sê cá o quem…

– Mái, voltando ô que se tava a falar, que tal achô a festa lá no Barranco dos Pisons?…

– Cá pra mim foi do melhor. Ali a mê da manhã, meti-me na camineta da Câmbra, levaram-me até lá, já a minha Larinda tamém lá tava que tinha ido a pé com a famila da Junta pa arrenjar o tal Ramo da Espiga. Ôvi a missa lá à rés do barranco, assantado numa pedra, e despôs, inchi o bandulho com umas guelosêras que tavam lá praquelas menzas…

– Pôs… Ele era frango assado, panito do casêro, bolo de tacho e prí fora… Pa nã falar numas garrafinhas que tamém lá tavam…

– Cale-se aí, parente!… Vinho, melosa, aguardente… Cada qual apresentava o melhor que tinha. Ê cá proví umas qontas, más aquela do ti Costa… Ai a do ti Costa!… Homem marafado!… Aquilo nem se sintia às goélas abaxo…

– Era da boa, sa senhora, quele tamém me dé um calcesinho e sôbe-me que nem ginjas. Más ê cá tava mái afalcoado que vomecêa quê tamém fui à pata désna da Vila até lá, atrás da famila da Junta.

– Nã tevesse sido parvo. Fosse com-migo na camineta que nã se pagava nada… Se tava com medo de pagar belhete, já sabe que a Câmbra nã leva nada. É tudo de graça.

– Lá tá mecêa!… Nã foi lá premode isso. Ê cá é que gostí d’ ir assim a pé. Bem sabe qué uma coisa quê gosto de fazer é andar…

– E que tal?


Dia da Espiga 2011 MonchiqueA Missa Campal, tá bom de ver, é tôdes anos no mémo sito…

– Ora… Foi do melhor. A lonjura nã era munta, a companha era boa, aquilo, a maior parte da famila era mulherio e môces-pequenes – aqueles meçalhos fardados de calçanitos e camisa v’rde-negra…

– Ah, os escutêres…

– Sa senhora. E já sabe cmé qué o mulherio. Vai sempe tudo na galhofa… Era a ver qual é que se apresentava com o Ramo da Espiga mái bonito. E olhe que parceram lá algumas que saberam compor aquilo muntíssemo de bem…

– Parente, nã conhêce aquele ditado que diz que ‘quem sabe da luta é quem na labuta‘? E elas é que lidam com flores é que sabem compor o Ramo…

– Tá bem visto… Já há bem munto tempo quê cá nã ôvia essa. Tamém vomecêa sabe buber umas boas copadas d’ aguardente. Toda a vida panhô madronho e estilô…

– E mecêa, não?!… Olhe que lá nesse dia, ê bem no vi já com olhes tôdes pisques e a rir e mangar c’m’ nã é sê questume…

– Isso é que tava sastefêto…

– Ê bem vi que tava. E sê munto bem o perquém. Foram aqueles calcesinhos dela que mecêa imborcô lá da do ti Costa, masturada com a dôtres amigos que tamém levaram umas garrafinhas da deles…

 – Nã diga isso, parente Tóino!… Inda alguém cuda paí quê cá sô algum relaxado…

– Nã digo tanto. Mái que mecêa, parente Refóias, já tava um coisinho escorvado, nã diga que nã tava…

 – Alguma vez?!…


Dia da Espiga 2011 MonchiqueÀ hora das sopas, parêce sempe alguma coisinha pa se dar ô dente…

– Atã e despôs, naquele estado, cmé que dé voltado pa casa?…

– Nã goze quê cá nã tava escarado. Vá lá que tevesse, assim, um coisinho pô antrado… Más, olhe, despôs daquilo tudo, tive lá um amigo bom que me vê trazer à porta de casa. Calhô-me mémo ô queres. Nã tive que tar à espera da via da Junta nem de me pôr a andar ôta vez a pé…

– Quem é ruim, tem sempe sorte…

Pronto, mês belos amigos, foi assim a minha Quinta-fêra d’ Às-sunção, mái conhecida pre Dia da Espiga.

Querendem ver retratos e videos, vã à internet ô Parente da Refóias.

E, fiquem-se com Dés.

As Pedras da Picota (sienito nefelínico) 2011

 Verdade se diga, a Serra de Monchique tem sido Mãe da gente tôdes…

– Falando da Picota, ele andam prí uns zum-zuns que há quem quêra fazer p’ àlém mái umas pedrêras…

– E é bem verdade, sa senhora. Premode isso, ontordia, dí-me ô trabalho e fui ali à Caxa Agrícola, a uma runião qu’ eles fazeram pa falarem desse caso.

– Atã e nã me disse nada?!… S’ ê cá sabesse, tamém tinha ido…

– Olhe, ti Zé – era o ti Zé da Côrcha a falar com-migo – nã me leve a mal más ê cá tamém nã sabia. Calhô foi a ir nesse sábedo, despôs do almôce, até ali ô alto da Praça e dar de frente com o parente Zé Caçapo na conversa com o mê compade Jôquim do Barranco.

– E o qu’ é qu’ isso tem?!…

– Pere aí qu’ ê já le digo.

– Já tá a enventar…

– Que jêto?!… Os homens vinham tã emprensados na conversa um com o ôtro, com uma latomia qu’ ê cá até cudí que tinha morrido alguém da famila… Olhe, nem deram pre mim…

– E iam pá Caxa Agrícola?

Os que tavam contre eram más cos ôtres…

– Nã senhora. Iam a tramelear a respêto dessas tás pedrêras que vomecêa falô inda agora.

– Ah, atã eles tamém tinham ôvisto dezer alguma coisa a esse respêto…

– Pôs tinham. Mái nã se davam era intendido os dôs. Um que toma, ôtro que dêxa e cada qual clamava pre sê lado.

– Atã e despôs?

– Despôs, tive qu’ ir, assim, drêto a eles, dar um incalhão no ti Zé Caçapo – o Verruma, le chama a gente – e foi cmo eles deram notiça de mim. E, aí, meti-me tamém na conversa e foi qondo eles me dezeram que, dali a um coisinho, ia haver essa tal runião na Caxa.

Voltí-me pra eles:

– Atã e sa gente fosse tamém ver o qu’ é qu’ os homens têm lá pa apresentar?…

– Tá bom de ver qu’ o ti Caçapo disse logo que sim. Agora o sê compade nã sê, nã sê… O homem, béque-me, tem medo desses sitos…

– D’zer a verdade, o mê compade é assim pô vergonhoso mái, méme assim, nã se fez munto fêo. E lá abalamos.

-Atã e que tal?

Assantados à menza tavam lá uns dôtores. O da ponta de cá nã tava lá munto sastefêto, nã senhora…

– Ora… É o de c’stume. Tavam uma remessa deles assantados numa menza, tudo dôtores, a darem a lição e os ôtes, cmá gente, da banda de cá, assantados cada qual na su cadêrinha, à escuta do qu’ eles deziam.

– E falaram bem?

– Falar, falaram. Más aquilo era assim: os de cá de Monchique eram, béque-me, tudo contre. Ó se nã eram tôdes, faziam de conta. Os que nã eram de cá, punhana!, era tudo a favor…

– Atã, marafaram-se uns com os ôtes… Ai, logo ê cá nã ter ido!…

– Pere aí, ti Zé, qu’ isso nã foi bem assim. Inda hôve pa lá uma quesilha com o senhor Presidente e um dôtor que vêo, calculo ê cá, de Faro, mái aquilo nã teve dúveda. Agora lá com uns estrangêros que se metiam no mêo da conversa dele é qu’ a coisa teve que se le dezesse.

– Ah, tamém tavam lá estrangêros… E o qu’ é qu’ eles têm que se meter no caso?…

– Têm. Atã nã vê, eles moram já bem muntos àlém pre aqueles charazes. Té le digo más: tavam lá mái estrangêros a ôvir aquilo do que memo cá dos nossos. E fique sabendo, eles inda eram os que tavam mái inrèxados com aquilo tudo. Levaram lá uns cartazes e tudo…

– Pa impertenecerem os ôtes?

O senhores Presidentes da Assemblêa Menicipal e da Cambra tamém lá tavam assantados…

– Sa senhora, ti Zé. Pa dezerem que sã contre.

– E lá esses tales dotôres nã se emportavam?

– Ai nã s’ emportavam… Aquele qu’ ê cá disse que vêo de Faro chigô a um ponto que tava tã infèzado, tã infèzado, qu’ ê cá vi jêtos dele abalar porta fora. É que havia lá umas alemôas que, dora im qonto, nem no dêxavam abrir pio…

– Atã e que jêto a famila nã querer dêxar eles tirarem as pedras de lá da Picota? Aquilo fazia algum mal? Só a mim ninguém me tira as que tã lá interradas nos mês cantêros. Qondo calha, dô-le com cada inxadada qu’ até faz faísca…

– Ó ti Zé, nã sã pedras dessas, home… O qu’ eles querem é arrencar aqueles moledos munta grandes que há debaxo do chão, c’m’ fazem ali na Nave. Pa blocos e brita e essas coisas todas…

– É da manêra que arrenjam sito pa muntos trabalharem…

– Sê cá se é pra muntos se é só pa mêa-dúiza qu’ eles trazem logo lá dadonde são? Desem-magine-se qu’ isto agora é tudo fêto com maquinaria…

– Mái sempe hõ-de dêxar cá alguma coisa. Vã ôs cafés, ôs restairantes…

Inda assim, ajuntõ-se uma bela famila lá na Caxa pôs ôvir…

– Isso hã-de ir. Atã e o resto? O mal que fazem?

– O qu’ é qu’ eles fazerã p’ aí assim de tã ruim?

– Olhe, à uma, estafajam a Serra toda que nã se pode olhar pa ela, à ôta, escalavardam aí as estradas adonde passam com esses camions carregados com um peso de bruteza…

– A Cambra logo as arrenja…

– Com que dinhêro? Atão eles vã pagar os impôstos é lá adonde eles pertencem… Nã sê se sã de Lisboa, se do Porto, se dadonde são…

– Disso nã intendo nada…

– E ôta que tamém tem que se le diga…

– Inda más?!…

– E a pòzêra pa quem mora lá ô pé e samêe lá umas batatinhas, um melhinho, umas bejoarias e tenha umas arvezinhas pa c’mer uma frutinha im chigando o tempo dela?…

– Isso aí é que já é pior… Se me estragam uns albricoques qu’ ê cá tenho ali que sã uma lindeza, má da volta…

– E há munto mái coisas, nã cude. O qu’ é que tá agora aí a amentar tôdes dias?

Posto qu’ a maior parte dos que tavam lá eram estrangêros. E danados qu’ eles eram…

– Sê cá?!… O preço das coisas…

– Atã nã é os turistas? Mòrmente aqueles que gostam de andar à pata aí pre essas veredas? Esses nunca mái àlém põem os pés, fique sabendo…

– Sabe-se lá… E isso já fecô memo resolvido eles fazerem essas pedrêras?

– Nã fecô, nã senhora. Eles, agora, só querem é que os dêxem fazer prí umas exprementaçons a ver se a coisa vale a pena. Despôs, logo se vê. Más sabem eles já, nã cude…

– Ah, isso, é mái que certo qu’ eles já sabem muntíssemo de bem o que le vai no sentido…

– Atão, aprecate-se que, daqui pre dôs ó três anos, vai haver novas. Assim ê cá m’ ingane…

Mês belos amigos, pensem vomecêas tamém no caso e, em havendo mái alguma runião, vamos lá tôdes e cada qual que digo aquilo que acha bem ó mal. E logo se vê…

Dés le dê saúde a tôdes.

O Banho do 29 (2010)

No Banho do Vinte Nove, premêro, rapimpamos-se com o decomerzinho qu’ a gente leva…

Este ano ninguém teve desculpa pa nã ir ô Banho do Vinte Nove. Carruaja havia com fartura qu’ a Junta e a Cambra trataram disso c’m’ fazeram ôs ôtes anos; o tempo tava do melhor, amoroso qu’ até dava gosto, que nem uma arajazinha se sintia. E, méme que muntos digam qu’ isto tá mau, qu’ a coisa tá ruim, eles inda vã p’ aí pagando as reformazalhas à famila… Que jêto a gente nã s’ ir advertir?!…

Foi o qu’ ê cá fiz más a minha Maria e uns tantos amigues. E nã dí o tempo pre mal impregue. Nem ê cá, nem eles. Eles, dig’ ê cá, qu’ a maior parte era elas. E elas, c’m’ mecêas sabem muntíssemo de bem, quái sempe, inda são mái danadas pá galhofa do qu’ ôs homens. E pôs que nã querem crer, olhem bem pôs retratos qu’ ê cá tirí e pôs filmes qu’ a minha mánica tamém fez que logo veem s’ a rezão tá do mê lado ó se nã tá…

D’zer a verdade, já ia pa uns dôs anos qu’ ê cá nã punha lá os pés. Nã que nã goste d’ ir, mái atão as coisas nem sempe calham a nosso favor… Olhem, o ano passado, nã sê se fui ê cá se foi a minha Maria – ó saria-se os dôs… – tava-se com uma catarrêra que nem pensar em im largar o monte. De manêras que f’camos pre qui. E há dôs anos, se nã tô atribuído, o tempo béque-me tava chuvoso que nã dé pa se fazer nada de jêto.

… muntas das vezes, méme p’ à famila da alta, até umas papas com temates dã jêto. E sâ guestosas, nã cudem…

Más olhem, desta vez, as coisas correram-me tã bem, tã bem que nem tampôco tive precisão da via da Cambra… Nas béspras, ó pa melhor d’zer, quái uma semana entes, tive logo aqui a oferta dum amigo que me levava a mim e á minha Maria e más os mês compadres. Foi o parente Cosme da Quinta.

Tá bem qu’ a via dele, uma camineta de caxa aberta, é já um coisinho usada – ora usada… tá quái fêta num caneco!… – e nã é lá gande coisa pa um serviço destes, mái c’m’ àquilo era pa s’ ir de nôte, tapados com o incerado qu’ ele tem lá, e a Guarda, a essas horas, calhando, eram capazes de tar a comer qualquer coisinha e nã andarem aí na estrada a charingar um e ôtro, pegamos na gente e foi-se tôdes. E inda mái uma pagela deles…

Iam tantos c’m’ dez amalhòfados debaxo desse tal incerado. Tirando o chòfer, o compade Jôquim do Barranco e a c’made C’stóida – qu’ esses, foram na cabine más a minha Maria – era ê cá, o Adelino da Desmoitada, um gozão do pior, o Arraúl Vàlise, que teve na França, o ti Luís Agúida, que tem um mata-velhos mái nã anda de nôte que tem medo, o Martinho do Almarjão, alomeado pre Pata-Rasa, o Tóino Luzicuco, sempe de cigarro na boca, o parente Zé Caçapo, Verruma le chamam, sempe a sovinar, e fico-me pre qui qu’ os ôtes iam tôdes acuados ô canto do taipal e já nem m’ alembra bem quem eles eram…

… bebe-se-le, tamém, um calcesinho dela. Da boa, tá bom de ver…

Nôtes tempos, nã era nada disto. O mái que se podia arrenjar era um carro de besta com uns sês ó sete lugares, nã contando com o carrêro. Quem nã t’vesse carro de besta ó d’nhêro pô alugar, qu’ era o que se dava com quái tôdes, ia a pé ó, calhando a terem um burro na arramada, amontavam-se nele, à vez, e passadas umas quatro ó cinco horas, chigavam o sê destino deles, na Praia do Vau.

Mái nã cudem, lá p’r isso, a galhofa nã f’cava nada atrás do qu’ a famila faz hoje im dia… Mái pra más do que pra menes. Nã veem, é qu’ ir désna de Monchique – levem bem repáiro que d’zer Monchique é o mémo que falar na Serra toda; é o concelho duma ponta à ôta – até à Praia do Vau de carro de besta ó a pé inda levava umas belas horas e a famila tinha qu’ ir logo adiantando algum serviço…

De manêras que, ia-se andando e c’mendo. Uns pexinhos da horta, uns coisinhos de chôriça, uma felhòzinha, umas coisinhas assim… E pa impurrar isso tudo pas goélas abaxo e nã imbassar, o qu’ é qu’ uma pessoa podia fazer?… Tá claro, bubia-se-le uns porrêtes… Ora aquilo dava cá uma enfluêinça!… Nem o caminho custava a andar…

… charola-se e balha-se um belo pôcachinho pa desmoer a pelharcada…

Esta conversa fez-me vir à idéa o que se dé desta vez. O Tóino Luzicuco, sempe com a mania do fumar, que nã pode passar, tava-se a gente tôdes munto bem sa senhora boa vida amalhòfados debaxo do incerado, puxa da su onça ‘Águia‘ dele e do sê livro de papel béque-me da méma marca, tira uma mortalha, despeja-le um coisinho de tabaco pa drento e vá d’ inrolar. Pensí cá pra mim:

– Nã me digam qu’este saganheta vai-se pôr a fumar aqui mémo num sito destes…

Inrolô, inrolô… passô-le cuspinho com a língua na ponta da mortalha, deslizô-le o dedo duma ponta à ôta p’ àquilo colar, dé umas batidinhas com a ponta do cigarro na unha do dedo grande – há quem le chame o mata-piolhos… – e pôse-o na boca. Inda ramordí cá pra mim:

– Eh’q, aquilo, calhando, é só pa ele matar o viço e nã no acende… Senã a gente inda cuda de morrer aqui com falta d’ ar e desata tudo a tossir.

Qual o quem?!… Tã penas olho ôta vez pa ele, já o marafado tinha tirado uma caxa de forfes da alsebêra e toca de puxar um forfe pô acender. Mái, às escuras, o Tóino nã fechô bem a caxa. Ora, nesse mê tempo, o parente Cosme teve que fazer uma travaja a fundo… Só mái tarde é que sube que se l’ atravessô um bicho na frente da camineta… Ele bem qu’inda riscô o forfe, sa senhora, e acendeu-o, mái atão, com o balanço, os ôtes desparceram tôdes da caxa… Desata tudo numa risada:

… e só despôs é que s’ afituramos a ir pa drento d’ água…

– Ai Tóino que lá se foram as tuas acendalhas todas!… E, calhando, o cigarrinho tamém…

– Nã queria mái nada!… O cigarrinho tá aqui na boca e este forfe inda tá im chama. Dêxa-me lá acender o cigarro entes qu’ ele s’ apague…

– Olha lá nã sabes que nã é atorizado fumar im sitos fechados?!… Nã vês qu’ isto aqui é c’m’ se fosse lá na venda do Alferce… Eles lá dêxam-te fumar?…

– Nã vejo aqui nenhum papel na parede a d’zer o contráiro. De manêras que nã se ponha com coisas. Más a más qu’ o sito é bem arejado…

E pôs-se a ver se dava panhado os forfes que tinham caído. Mái atão, com o vento que antrava pa drento do encerado com o andar da camineta, adonde é qu’ eles já tavam… Nem um…

– Bem fêta, qu’ é p’ à ôta vez respêtares. E, agora, munto bem me calhava qu’ o vento tamém te levasse o cigarro da boca…

E dí uma piscadela d’ olho ô ti Zé Caçapo. Ele, pre alguma rezão le chamam o ‘Verruma’, intendé logo, vai assim p’ trás do Tóino Luzicuco, c’m’ quem nã quer a coisa, dá-le um toque de lado com uma mão, ele volta a cara, ô méme tempo, dá-le ôtro toque no cigarro com a ôta mão, lá vai ele pros ares…

Otra risada im forte… Más aí, o Tóino f’cô um coisinho sintido e desatô a d’zer alarvidades. Se nã é o ti Zé Caçapo ser um homem duma certa idade, nã sê nã sê… Inda vi jêtos do Tóino se jogar a ele. Mái a coisa lá atamancô e, dali a um nadinha, tava-se a chigar à Praia do Vau.

… ô fim, volta-se p’ra casa, tôdes sastefêtes, com a trugia toda às costas…

Do que se passô lá méme na arêa da praia já mecêas hã-de saber. Foi tudo munto advertido, a famila incheu tudo o bandulho até mái não. De coisas pa buber, só f’cô lá a água do mar. Quái tôdes balharam, cantaram e uns tantos que t’veram mái fôiteza sempe se jogaram à água pa se lavajarem e p’ à SIC filmar.

Só o que les sê d’zer é que inda pus os caguetes tamém drento d’ água e, d’zer a verdade, nã na achí munto fria, mái c’m’ à minha Maria se tinha desquecido da toalha im casa e as cirôilas qu’ ê cá levava eram novas nã me dava jêto molhá-las logo, só cheguí com a água pros artelhos. Mái hôve menino que antrô lá pa drento e quái que já nem queria sair. Ôtes, atão, insiavam-se duma tal manêra qu’ ê cá até os ôvia méme ali à babuja. E, no mêo daquilo tudo, inda béque-me hôve lá um que vinha a arrabolar inrolado numa onda…

Querendem ver videos e retratos do que se passô lá, vã ô Parente da Refóias na internet.

Dés le dê saúde.

A Descasca de Marmelete (2011)

Ele inda há quem saiba descascar bem uma maçaroca…

– Nã quero. É que já me fazeram marafar! Já me fazeram marafar!…

Saltô o ti Batizar, tã penas a menina Marta, a Senhora Presidenta da Junta – sem ofensa, sempe munto jêtosinha… – le pôs a cesta dos bolos ô alcance e le prècurô s’ im cimba da fatêa do bolo de alforge, tamém queria molhar o bico com um calcesinho dela.

– Já, o ano passado, foi a méma meséira… Fazeram-me marafar!…

E olhava assim de esguelha, munto desconsolado, pô calcesinho de madronho qu’ a senhora presedenta sustinha numa mão e, inda mái desgostoso, pá garrafinha de madronho, já im mêo esvaziar, que ela sigurava na ôta.

Dezer a verdade, nãs sê o qu’ é que fazeram ó dezeram à criatura. Mái teve que ser coisa munto manhosa. Pa ele fecar daquela manêra e nem tampôco se jogar a buber um solvinho… E digo um solvinho qu’ aquilo nã podia acabedar um copalho daqueles chêo a cada um, senã a garrafa ia-se num estante e nã dava pa dar as provas a tôdes…

– E isto passava-se adonde? – Prècuro ê cá a vomecêas tôdes.

Ora, adonde é que havera de ser… Foi na descasca de Marmelete!… Pôs foi. Tôdes anos, a Junta de Marmelete arrenja esta descasca pôs velhos c’m’ ê cá, s’ alembrarem do q’ usavam a fazer nôtres tempos e, pôs nôvos, que nã conheceram tal coisa, f’carem a saber cmo era.

E olhem qu’ ê cá, s’ há coisas qu’ ê aprecêo, é ir a uma descasca e ver ali tudo jogado à maçaroca a le tirar a folhêrasca c’m’ tava aquela famila toda a fazer na Descasca de Marmelete…

Uns dem pé com as botas atafulhadas nas folhêrascas, ôtes assantadas no monte das maçarocas panhando com a pòzêra do milho e uns cabelos de charrafa im cimba da cabeça e dos ombros, vá de descascarem nelas…

Vá lá qu’ ô meme tempo, iam ôvindo umas modinhas qu’ o tocador de fole p’ ali arremendava… E tamém aprevêtavam pa d’zer umas patochadas pa tôdes se rirem. Quái sempe, verdade se diga, era mái umas puas pa inzàinar este ó aquele do qu’ ôta coisa.

A menina Marta esvaziô uma garrafa de madronho com aquela famila toda. Mái o ti Batizar nã quis…

E, desta vez, a famila era béque-me mái qu’ o ano passado. Ó ê cá tô atribuído ó atão nã sê. Ô certo, ô certo, é qu’ aquilo, im menes dum foguete, já tavam as maçarocas todas descascadas. Calhando, tamém a coisa andô mái depressa premode tar tudo com o fito no balho que, em acabando a descasca, ia haver drento da Casa do Povo…

Mái, meme assim, inda parcé lá uma maçaroca incarnada, coisa qu’ ê cá já nã punha os olhos im riba faz uns belos anos. Qu’ isto, d’ há uns tempes pra cá, já ninguém samêa milho do antigo. Agora é só deste moderno, híbrido le chamam. Ó nã sê até se nã sará dum ôtro, inda mái moderno, qu’ eles enventaram que se tem que comprar, tôdes anos, a semente. Des qu’ é ‘geneticamente modificado’…

E desses marafados, atão, aquilo, as maçarocas, parêcem todas iguás, do mémo tamanho, da méma cor, com os mémos bagos e méme xarrafa pôca têm… Ora, dar com uma que tenha milho incarnado, isso atão, sósse pre milagre. E desta vez, p’ro jêto, hôve lá uma moça que foi milagrêra. Dé com uma no mêo das ôtas todas. Só que nã fez o que tinha a fazer…

Ele hôve quem l’ acabedasse uma maçaroca de milho incarnado. Mái nã fez o que tinha a fazer…

No mê tempo, quem desse com uma maçaroca de milho incarnado, tinha de pagar uma rodada de bêjos e abraços. Se fosse um môce, dava nas moças, se fosse uma moça, dava nos môces…

Esta, na Descasca de Marmelete, negô-se ô puxo e dé uma ronciada. Mái lá que f’cô contente com a maçarocalha, lá isso f’cô. Qu’ ê bem na vi andar o resto da nôte de maçaroca na mão, que nã na largô nem tampôco inqonto andô lá no balho a balhar im forte. Mái dêxamos isso agora da mão…

Ôta coisa qu’ ê cá leví repáiro foi que a Cambra, desta vez, mandô uma camineta com a famila lá da Vila. E fez ela senã bem… Assim, ajuntaram-se mái uma bela mêa-dúiza. E alguns, pr’ aquilo que vi, foi a pr’mêra vez que lá foram. Mái nã deram o tempo pre mal impregue. Disso tenho a firme certeza…

A famila da Cambra tamém tava tudo no pagode…

Pre menes, a famila que manda lá na Cambra tava tudo advertido qu’ até dava gosto. Tanto se faz o Senhor Presidente c’mos ajudantes dele, foi até mái não… Descascaram maçarocas à rôpa toda, c’meram bolo d’ alforge, buberam uns calcesinhos dela e, d’ ora im qonto, judiavam uns com os ôtos.

E, a cabo dum pôco, já ele nã havia lá nada naquele chão senã um monte f’lhêrascas. Sim, qu’ as maçarocas descascadas, essas, já tavam drento de sacas de ráfia, im moitons, prontas para serem jogadas pa drento da camineta da Junta, pás irem levar pô almêxar.

Qu’ ê cá, atão, nã les posso afiançar qu’ o dono tenho fêto algum almêxar. Mái o que era dado fazer era isso. Pôr-se-as a secar, todas munto bem estramalhadinhas, num sito d’rêto, adonde panhassem o solinho todo do dia. E f’car-se sempe com o olho no astro, nã fosse ele vir alguma gota d’ água que marafasse aquilo tudo…

Ô fim, inda parceram as f’lhozes da senhora Ester, que sã do melhor que possa ser e haver…

Lá já do mêo prô fim, – c’m’ ê cá falí logo no prencipo – vêo, atão, a Senhora Presidenta da Junta, a menina Marta, com uma cesta de fatias de bolo d’ alforge e uma garrafinha d’ aguardente de madronho e lá foi dando aquilo a quem se quis rapimpar.

A fartura, verdade se diga, nã era munta, mái foi de boa vontade. Lá isso foi qu’ ê bem vi que foi. E sempe dé pa alimpar as goélas daquela pòzêra que saía da fatana do milho… Havia menino que, entes de provar a aguardentinha, só fazia era tossir. Parecia que tava tudo com polmêro. Mái, tã penas impinavam o calcesinho dela, já nã havia tosse denhuma e rôquêra inda munto menes…

Olhem, fica-se pre quí hoje.

Querendem ver videos e retratos do que se passô lá, vã ô Parente da Refóias na internet.

E tenham tôdes munta saúde.