O Monte Saquir no Inferno de Dante

Por sete dias, a Montanha Sagrada  –  Monte Saquir para os árabes, Serra de Monchique para nós  –  viu-se, novamente, envolvida no Inferno de Dante.

A freguesia do Alferce ficou reduzida a cinzas e grande parte da de Monchique ardeu também. Restou a de Marmelete que foi poupada este ano.

Pouco mais há a dizer. Todos já sabem o resto. Uns com uma versão, outros com outra.

Há dois anos, publiquei um pequeno vídeo no Youtube, feito no ataque final a um outro incêndio em que uma das frentes foi dominada na Ribeira de João de Gales, Marmelete (https://www.youtube.com/watch?v=KE7HVycso3Q&t=6s). Nesse vídeo, terminava com as seguintes palavras:

Ainda este ano, no próximo, no seguinte e para sempre, teremos mais… Não se iluda caro compatriota. Enquanto os donos dos terrenos e o estado não limparem o mato, enquanto os criminosos forem tratados como pessoas de bem e os cidadãos cumpridores foram tratados como criminosos, enquanto os meios priviligiados de ataque aos incêndios estiverem nas mãos de privados, enquanto o nosso país for gerido por políticos como os que temos tido desde há séculos e, em especial, nas últimas décadas, nada mudará para melhor!…“.

Nada tenho a acrescentar…

Para ver o slideshow, clique sobre a imagem, se faz favor.

A Magnólia do Convento – 2011


Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)A Magnólia do Convento béque-me tá vai nã vai…

– Ó c’pad’ Jôquim, tenho andado im cudados premode àlém a Magnólia do Convento (Magnolia grandiflora). Olho pra ela e béque-me nunca a vi daquela manêra…

Isto era ê cá, uma tarde destas, lambareando com o mê compade Jôquim, os dôs assantados ali à sombra duma f’guêra dele, dêxando passar o tempo. À sombra, é c’m’ quem diz, debaxo dela, que folhas inda nã as tem. E à míngua d’ ôtre assunto mái jêtoso.

Ele, dezer a verdade, até que havia ôtas coisas qua gente bem podia conversar, qu’ isto agora, nã se fala senã na falta de dinhêro pre toda à banda e ôtas parvoêras dessa coisa dos partidos e tal e tal, mái cá a gente os dôs nã se metemos nisso…

– Olhe, tamém tenho levado repáiro que se passa p’ àlém quasequer coisa. O qué nã sê, mái qu’ ela tá com munto má cara, lá isso tá…

Nesse entrementes, parêce o ti ‘Verruma’ – o parente Zé Caçapo – tamém sem nada pa fazer e todo fêtinho pa vir sovinar a gente, cmo é uso dele.

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)Os tróços mái grossos tã a fecar tôdes podridos. E folhas… pôcas já tem e bem marelas…

– Logo agora quê cá vinha de boa avêa pa buber aí um calcesinho dela quo Refóias tevesse paí pa dar à gente… Daquela qu’ ele fez o ano passado… Nã é duma bagaja qu’ ele, ás vezes, usa a dar, que nem se dá bubido… Nem sê d’ adonde é qu’ ele acareô tal abobraja…

– E mecêa que nã viesse logo à pida e com conversas estragadas… Nã trôxe uma garrafinha lá da sua premode quem? Ó tem medo de s’ apresentar com ela?… Nã tem nada im ser pôco mái que frôxa…

– Ai frôxa!… Tomaram vancêas possuir um material daquela quôlideza… Tem vinte e um garantidos… Pra más que pra menes!…

– Atã trazesse-a pá gente ver isso… Mái vomecêa é mái fònica que sê cá o quem…

– Olhem, dêxem lá isso quê cá digo já ali à minha Questóida que traga uma garrafinha da minha e dê uma rodadinha à gente…

Saltô logo o mê compade Jôquim pa atalhar a conversa, nã fosse a gente se marafar p’ ali uns com os ôtes.

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)Inda nã há munto tempo qu’ ela era assim. Foi na era de 2007. No mês de S. João…

– Tava, atão, a gente, munto bem sa senhora boa vida, a falar a respêto da Magnólia do Convento qondo o parente Zé se pôs aqui a matinar com o raça da aguardente… Mái nã les parêce qu’ ela tá aqui tá despachada?…

– Nã me diga uma coisa dessas, home!… Uma arve daquelas com quái quatecentos anos…

– Quatecentos… é c’m’ quem diz… O que tá àlém na tableta é mái de duzentos…

– Atão e quatecentos nã é mái de duzentos?!…

– Nã se estique, parente, qu’ as ciroilas sã curtas…

– Qual o quem?!… Sempe tenho ôvisto dezer que quem na trôxe da Índia foi esse tal imbarcadiço que mandô fazer o Convento e despôs-je-a àlém, nessa ocasião. Ora o Convento foi inagurado… Qondo é qu’ ele foi inagurado, foi im…

– Nã sabe… Já vi que nã sabe!…

– Sê, sa senhora, más agora é que nã m’ alembra… Foi, foi… Olhe, nã me vem o ano à mimóira, mái foi pôcos anos entes da gente se ver livres dos Filipes. Qu’ isso sê ê cá muntíssemo de bem…

– Pôs foi. Foi im 1631. Agora se a Magnólia foi ó não despôsta nessa era é quê cá nã le sê dezer…

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)Agora, olha-se p’ às bandas do Convento e vê-se esta desfortuna…

– Que tenha sido nessa era ó que nã tenha, lá bem velha é ela. E até dá remôrses a qualquer um vê-la assim… S’ esse tal Pero da Silva que a despôs voltasse agora cá e a visse naquela miséira, dava-le uma coisa, pobrezinho…

– Ora dava-le… E, más a más, qu’ ele, tá bem qu’ andava de barco, mái nã era paí um marujo qualquer, c’m’ mecêa disse. O homem, pro jêto, representava ser lá o chefe daquilo tudo na Índia…

– Calhando… S’ ele era o vice-rê, alguma coisa havera de mandar… Mái qondo se vi inrrascado no mar e aprometeu que, se escapasse, fazia o Convento, aí nã le servia de nada mandar…

– Olhe lá, parente Zé… Aí há uns quatro ó cinco anos, nã le tinha já caído uma grandessíssema pernada com o vento?… Tinha, nã tinha?
– Pôs tinha. Era quái do tamanho desta feguêra. Sem tirar nem pôr…

– E ele des que hôve um que a foi lá serrar e carregô-a pa fazer fogo im casa. Nã taria sido vomecêa?…

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)Faz três ó quatro anos, inda dava gosto olhar pra lá…

– Olhe lá, cuda quê sô dos sês ó quem?!… Ê só panho lenha adonde me pertence. E tenho lá munto pre donde escolher nas minhas sobrêras…

– Nã se inzáine, parente Zé!… Ê tava só a prècurar… Más aquilo, calhando, inda dé uma bela manchinha de lenha…

– Atã isso sabe-se…

– E nã les parêce que, se nessa altura, tevessem fêto alguma coisa, nã tinha nada im a arve, agora, tar nôtas condiçons?…

– Sê cá!… Ela já é tã antiga…

– Mái nã se tinha perdido nada im ter dado àlém um jêtinho àquilo, nã era dêxarem andar àlém o gado a estrumar daquela manêra e a arrojar aquela terra toda pra baxo c’m’ dêxaram… Já com o Convento é o mémo. Inda há-de cair dum todo…

– Olhem, mémo assim, inda tenho fé qu’ ela vá arriba… Nã sê que jêto, mái tenho aqui uma coisa que me diz que sim…

– Vai arriba, vai… Ê nã vô é lá pa debaxo dela, entes que me caia uma pernada daquelas im cimba do lombo e arrebente com-migo…

– Lá nisso nã dêxo de le dar os àméns. É preciso munto cudadinho nã vá um homem levar àlém uma tarôcada im forte…


Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)Des que tem mái de duzentos anos. Pôs tem. Calhando vêo da Índia há uns quatrocentos… É o que tenho ôvisto dezer…

– Más ê cá, dezer a verdade, o que me dá mái pàxão é ver o vivente más antigo cá da nossa zona desparcer. E sem tampôco a gente saber que moléstia é qu’ ele tem. Inda más essa!…

– Ah isso é certo e sabido. Aquela arve é o vivente mái velho aqui desta serra toda. Nã tenho medo de dezer…

– Sósse aquela sobrêra àlém da Corte Grande ser inda más antiga. Sará?…

– Que jêto?!… Nã pense nisso!… Aquilo é uma sobrêra tamém munto valente, mái mái velha qu’ à Magnólia do Convento?!… Nã é, nã senhora! Cudo ê cá…

– De manêras qu’ o certo, o certo, é que a Magnólia do Convento tá com munto má cara e quem sabe lá o qué que se vai dar com ela. Más, agora, descorré-me aqui uma coisa da cabeça:

Esse tal amigo Pero da Silva nã sê se tá no céu se tá no enferno, mái cudo que teja no céu qu’ o homem fez o Convento e despôs a Magnólia, bem murêce… E, atão, tendo lá pazes com Dés Nosso Senhor ó com um Santo daqueles que mandem qualsequer coisinha, bem podia meter lá um empenho pa ver se a Magnólia inda nã ia desta…

– Faça isso, mê belo amigo Pero da Silva!… Fale aí com quem munto bem le dê jêto e nã dêxe a gente fecar sem a nossa Magnólia que mecêa despôs logo prebaxinho do Convento…

E vomecêas fiquem-se com Dés e até qua gente se veja.

α — ω

Nota: A Magnólia do Convento acabou por secar e morrer sem que nada de útil tivesse sido feito atempadamente para evitar esse ‘desastre’ ecológico e histórico para a nossa Região de Monchique.

Durante alguns anos, restaram o tronco e alguns galhos secos a testemunhar que ela existiu e a avivar a nossa tristeza por sabermos que morreu.

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)Citando o grande dramaturgo Alejandro Casona, ‘as árvores morrem de pé’!…

Será caso para acrescentar agora: depois, são abatidas…Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos – Monchique (Magnolia grandiflora)

Só depois são abatidas…

Em Dia de Vera Cruz…

Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz - MonchiqueA Senhora do Pé da Cruz e o sê rico felhinho, pobrezinho, tôde fêto num frangalho…

Im Monchique, no três de Maio, dia de Vera Cruz, inda se usa a ir à missa à Igreja do Pé da Cruz. E, este ano, isso dé-se, c’m’ de questume. Ê cá fui lá más a minha Maria. E o Vergil Penusga tamém lá parceu. Mái só m’ incontrí com ele já no fim daquilo tudo, qu’ a famila era munta e a ermida nã é nada camposa.

Tamém, nã sê que jêto terem quái tôdes o mémo questume marafado de, à medida que vã chigando, im vez de se acomodarem lá pà frente pô pé do altar, ficar tudo logo ali ô pé da porta. Ora, os que chegam ô fim, c’m’ ê cá m’ aconteceu, têm que fecar ali da banda de fora… Ô sol, à chuva e ô vento, consoante o tempo que faça, tá bom de ver…

Dezer a verdade, desta vez, panhí ali uma soalhêra tã danada nos cascos que chigô a pontos q’ até cudava que já tinha os miôlos a fritar. E mái q’ uma pessoa ingrilasse lá pa drento, nã dava visto nada premode tar incandeado do sol. E, ôvir o qu’ o senhor Prior diz, só espetando munto bem a orelha…

Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz - MonchiqueA Vera Cruz, calhando, nã tem nada im ser esta…

– Olha o Vergil!… Atã tamém vieste à missa hoje? Mémo ô dia de semana?!…

– Que jêtes não?!… Foi sempe mê questume vir a esta festa, nã havera de faltar agora que já tô fêto num cangalho e, nã tardando, tarê qu’ ir prestar contas ô Criador…

– Cruzes!!… Mái que conversa é essa, primo Vergil?!…

Saltô logo a minha Maria, toda chêa de cagúifa, qu’ ela inda é um coisinho mái velha do que ele e alembrô-se que a hora dela tamém nã havera de tar munto longe…

– Eh’q, ê cá sempe gostí de vir à missa, mái dá-me uma gande paxão olhar ali pá imaja da Nossa Senhora com o filhinho dela no colo, morto e todo chêo de cortiladas… Olhem, désna da premêra vez qu’ aqui antrí, faz mái de cinquenta e tal anos, fequí com esta coisa na idéa…

Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz - MonchiqueEm Dia de Vera Cruz, abre-se a porta da Senhora do Pé da Cruz…

– Mái, dêxando isso da mão, nôtes tempes, isto nã era assim só uma missazalha, ô fim da tarde, pa mêa-dúiza de gatos pingados. Era uma festa c’m’ devia de ser…

– Pôs era. Mái atão, isto os tempos tão tôdes mudados. E munta sorte temos a gente d’ inda haver quasequer coisa…

– Lá isso é verdade. Mái c’m’ à coisa vai, nã sê, nã sê… Já repàiraste c’m’ é que tão ali as paredes da parte de drento da Capelinha?…

– Já vi, sim. Munto bem, até. Belarentas qu’ até dá dó e o cafelo todo a cair… Mái nã vás sem reposta qu’ isto já foi fêta há mái de 330 anos, mê belo amigo…

– O quem?!… C’m’ é que tu sabes disso? Ó tás a querer antrar com-migo?…

– Olha àlém pr’ àquela pedra pre cimba da porta e logo vês o qu’ é que diz lá…

Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz - Monchique…e, quái ô solpostinho, há uma missa p’a quem quêra lá ir…

E nã é que diz mémo lá qu’ a ermida foi fêta na era de 1680?… Aquilo custa-se a ler que, pra mim, é quái béque-me latim, mái foi um tal Afonso Anes qu’ ê cá nã les sê dezer quem ele era que mandô fazê-la e des qu’ a pagô da alsebêra dele. Bendçoado!…

– Pá idade que tem, até que nem tá assim munto velha… Nã te parêce, Vergil?

– Metôbrigado… Já foi arrenjada qontas vezes despôs disso?… Até já le prantaram ali umas imajas fêtas de cera pa le dar ôtros ares. Nã nas viste ali ô pé das janelas?

– Atã nã vi?!… A minha Maria prècurô-me s’ aquilo tamém sariam do tempo antigo. Mái, despôs, é qu’ a gente le descorreu qu’ elas eram das qu’ eles fazeram paí, o ano passado, na Semana Santa. Pa serem das deste ano, já tão assim um coisinho enravelhadas…

Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz - MonchiqueAquemedaram pa lá umas estátuas de cera fêtas o ano passado…

– Sã do ano passado, sim, qu’ ê cá sê que são. Elas tão assim tã enravelhadas nã sê s’ é premode calor que panham ali no verão ó se do qu’ é que é, mái uma coisa te digo, um destes dias inda derretem p’ ali todas. A pomba até já tem a asa aberta…

– Atão, s’ ela tá, béque-me, a querer voar, nã admira ter a asa aberta. As duas asas…

– Nã é isso, parente! Tem mémo uma asa esbroncada. Aquilo foi a cera que ressequiu e abriu uma fresta. Ó saria o artista qu’ a fez que quis dêxar logo aquilo assim?

– Só-se!… Alguma vez o homem ia fazer uma coisa dessas?!… Atã, eles tão dejando é de fazerem tudo o mái bem fêtinho que possa ser e haver…

– Olá!… Isso é o que tu cudas… Inda ontordia hôve quem me dezesse que lá no estrangêro tem havido quem faça mêa-dúiza de riscos num papel que ninguém sabe o qu’ aquilo representa e despôs dizem qu’ é um quadro do melhor e vendem-no pre uma fertuna…

Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz - Monchique… mái, andam, andam, inda elas se derretem sem ninguém dar per ela…

– Isso é os estrangêros que sã tôdes parvos. Agora a gente que somos escretos, nã se dêxamos ir atrás disso…

– Pôs é. Somos tã sabidos, tã sabidos que tamos c’m’ tamos…

E a conversa desandô p’ ô lado da política. Qu’ isto, agora, anda aí tudo enfluído com o falatóiro dos partidos. Uns que fazeram ôtros que nã fazeram, uns que fazem ôtros que nã fazem, uns que vã fazer ôtros que nã vã fazer. Mái esses assuntos nã são pr’ aqui chemados.

E, atão, munta saudinha pa tôdes e até ôtro dia.

As Pedras da Picota (sienito nefelínico) 2011

 Verdade se diga, a Serra de Monchique tem sido Mãe da gente tôdes…

– Falando da Picota, ele andam prí uns zum-zuns que há quem quêra fazer p’ àlém mái umas pedrêras…

– E é bem verdade, sa senhora. Premode isso, ontordia, dí-me ô trabalho e fui ali à Caxa Agrícola, a uma runião qu’ eles fazeram pa falarem desse caso.

– Atã e nã me disse nada?!… S’ ê cá sabesse, tamém tinha ido…

– Olhe, ti Zé – era o ti Zé da Côrcha a falar com-migo – nã me leve a mal más ê cá tamém nã sabia. Calhô foi a ir nesse sábedo, despôs do almôce, até ali ô alto da Praça e dar de frente com o parente Zé Caçapo na conversa com o mê compade Jôquim do Barranco.

– E o qu’ é qu’ isso tem?!…

– Pere aí qu’ ê já le digo.

– Já tá a enventar…

– Que jêto?!… Os homens vinham tã emprensados na conversa um com o ôtro, com uma latomia qu’ ê cá até cudí que tinha morrido alguém da famila… Olhe, nem deram pre mim…

– E iam pá Caxa Agrícola?

Os que tavam contre eram más cos ôtres…

– Nã senhora. Iam a tramelear a respêto dessas tás pedrêras que vomecêa falô inda agora.

– Ah, atã eles tamém tinham ôvisto dezer alguma coisa a esse respêto…

– Pôs tinham. Mái nã se davam era intendido os dôs. Um que toma, ôtro que dêxa e cada qual clamava pre sê lado.

– Atã e despôs?

– Despôs, tive qu’ ir, assim, drêto a eles, dar um incalhão no ti Zé Caçapo – o Verruma, le chama a gente – e foi cmo eles deram notiça de mim. E, aí, meti-me tamém na conversa e foi qondo eles me dezeram que, dali a um coisinho, ia haver essa tal runião na Caxa.

Voltí-me pra eles:

– Atã e sa gente fosse tamém ver o qu’ é qu’ os homens têm lá pa apresentar?…

– Tá bom de ver qu’ o ti Caçapo disse logo que sim. Agora o sê compade nã sê, nã sê… O homem, béque-me, tem medo desses sitos…

– D’zer a verdade, o mê compade é assim pô vergonhoso mái, méme assim, nã se fez munto fêo. E lá abalamos.

-Atã e que tal?

Assantados à menza tavam lá uns dôtores. O da ponta de cá nã tava lá munto sastefêto, nã senhora…

– Ora… É o de c’stume. Tavam uma remessa deles assantados numa menza, tudo dôtores, a darem a lição e os ôtes, cmá gente, da banda de cá, assantados cada qual na su cadêrinha, à escuta do qu’ eles deziam.

– E falaram bem?

– Falar, falaram. Más aquilo era assim: os de cá de Monchique eram, béque-me, tudo contre. Ó se nã eram tôdes, faziam de conta. Os que nã eram de cá, punhana!, era tudo a favor…

– Atã, marafaram-se uns com os ôtes… Ai, logo ê cá nã ter ido!…

– Pere aí, ti Zé, qu’ isso nã foi bem assim. Inda hôve pa lá uma quesilha com o senhor Presidente e um dôtor que vêo, calculo ê cá, de Faro, mái aquilo nã teve dúveda. Agora lá com uns estrangêros que se metiam no mêo da conversa dele é qu’ a coisa teve que se le dezesse.

– Ah, tamém tavam lá estrangêros… E o qu’ é qu’ eles têm que se meter no caso?…

– Têm. Atã nã vê, eles moram já bem muntos àlém pre aqueles charazes. Té le digo más: tavam lá mái estrangêros a ôvir aquilo do que memo cá dos nossos. E fique sabendo, eles inda eram os que tavam mái inrèxados com aquilo tudo. Levaram lá uns cartazes e tudo…

– Pa impertenecerem os ôtes?

O senhores Presidentes da Assemblêa Menicipal e da Cambra tamém lá tavam assantados…

– Sa senhora, ti Zé. Pa dezerem que sã contre.

– E lá esses tales dotôres nã se emportavam?

– Ai nã s’ emportavam… Aquele qu’ ê cá disse que vêo de Faro chigô a um ponto que tava tã infèzado, tã infèzado, qu’ ê cá vi jêtos dele abalar porta fora. É que havia lá umas alemôas que, dora im qonto, nem no dêxavam abrir pio…

– Atã e que jêto a famila nã querer dêxar eles tirarem as pedras de lá da Picota? Aquilo fazia algum mal? Só a mim ninguém me tira as que tã lá interradas nos mês cantêros. Qondo calha, dô-le com cada inxadada qu’ até faz faísca…

– Ó ti Zé, nã sã pedras dessas, home… O qu’ eles querem é arrencar aqueles moledos munta grandes que há debaxo do chão, c’m’ fazem ali na Nave. Pa blocos e brita e essas coisas todas…

– É da manêra que arrenjam sito pa muntos trabalharem…

– Sê cá se é pra muntos se é só pa mêa-dúiza qu’ eles trazem logo lá dadonde são? Desem-magine-se qu’ isto agora é tudo fêto com maquinaria…

– Mái sempe hõ-de dêxar cá alguma coisa. Vã ôs cafés, ôs restairantes…

Inda assim, ajuntõ-se uma bela famila lá na Caxa pôs ôvir…

– Isso hã-de ir. Atã e o resto? O mal que fazem?

– O qu’ é qu’ eles fazerã p’ aí assim de tã ruim?

– Olhe, à uma, estafajam a Serra toda que nã se pode olhar pa ela, à ôta, escalavardam aí as estradas adonde passam com esses camions carregados com um peso de bruteza…

– A Cambra logo as arrenja…

– Com que dinhêro? Atão eles vã pagar os impôstos é lá adonde eles pertencem… Nã sê se sã de Lisboa, se do Porto, se dadonde são…

– Disso nã intendo nada…

– E ôta que tamém tem que se le diga…

– Inda más?!…

– E a pòzêra pa quem mora lá ô pé e samêe lá umas batatinhas, um melhinho, umas bejoarias e tenha umas arvezinhas pa c’mer uma frutinha im chigando o tempo dela?…

– Isso aí é que já é pior… Se me estragam uns albricoques qu’ ê cá tenho ali que sã uma lindeza, má da volta…

– E há munto mái coisas, nã cude. O qu’ é que tá agora aí a amentar tôdes dias?

Posto qu’ a maior parte dos que tavam lá eram estrangêros. E danados qu’ eles eram…

– Sê cá?!… O preço das coisas…

– Atã nã é os turistas? Mòrmente aqueles que gostam de andar à pata aí pre essas veredas? Esses nunca mái àlém põem os pés, fique sabendo…

– Sabe-se lá… E isso já fecô memo resolvido eles fazerem essas pedrêras?

– Nã fecô, nã senhora. Eles, agora, só querem é que os dêxem fazer prí umas exprementaçons a ver se a coisa vale a pena. Despôs, logo se vê. Más sabem eles já, nã cude…

– Ah, isso, é mái que certo qu’ eles já sabem muntíssemo de bem o que le vai no sentido…

– Atão, aprecate-se que, daqui pre dôs ó três anos, vai haver novas. Assim ê cá m’ ingane…

Mês belos amigos, pensem vomecêas tamém no caso e, em havendo mái alguma runião, vamos lá tôdes e cada qual que digo aquilo que acha bem ó mal. E logo se vê…

Dés le dê saúde a tôdes.

O Banho do 29 (2010)

No Banho do Vinte Nove, premêro, rapimpamos-se com o decomerzinho qu’ a gente leva…

Este ano ninguém teve desculpa pa nã ir ô Banho do Vinte Nove. Carruaja havia com fartura qu’ a Junta e a Cambra trataram disso c’m’ fazeram ôs ôtes anos; o tempo tava do melhor, amoroso qu’ até dava gosto, que nem uma arajazinha se sintia. E, méme que muntos digam qu’ isto tá mau, qu’ a coisa tá ruim, eles inda vã p’ aí pagando as reformazalhas à famila… Que jêto a gente nã s’ ir advertir?!…

Foi o qu’ ê cá fiz más a minha Maria e uns tantos amigues. E nã dí o tempo pre mal impregue. Nem ê cá, nem eles. Eles, dig’ ê cá, qu’ a maior parte era elas. E elas, c’m’ mecêas sabem muntíssemo de bem, quái sempe, inda são mái danadas pá galhofa do qu’ ôs homens. E pôs que nã querem crer, olhem bem pôs retratos qu’ ê cá tirí e pôs filmes qu’ a minha mánica tamém fez que logo veem s’ a rezão tá do mê lado ó se nã tá…

D’zer a verdade, já ia pa uns dôs anos qu’ ê cá nã punha lá os pés. Nã que nã goste d’ ir, mái atão as coisas nem sempe calham a nosso favor… Olhem, o ano passado, nã sê se fui ê cá se foi a minha Maria – ó saria-se os dôs… – tava-se com uma catarrêra que nem pensar em im largar o monte. De manêras que f’camos pre qui. E há dôs anos, se nã tô atribuído, o tempo béque-me tava chuvoso que nã dé pa se fazer nada de jêto.

… muntas das vezes, méme p’ à famila da alta, até umas papas com temates dã jêto. E sâ guestosas, nã cudem…

Más olhem, desta vez, as coisas correram-me tã bem, tã bem que nem tampôco tive precisão da via da Cambra… Nas béspras, ó pa melhor d’zer, quái uma semana entes, tive logo aqui a oferta dum amigo que me levava a mim e á minha Maria e más os mês compadres. Foi o parente Cosme da Quinta.

Tá bem qu’ a via dele, uma camineta de caxa aberta, é já um coisinho usada – ora usada… tá quái fêta num caneco!… – e nã é lá gande coisa pa um serviço destes, mái c’m’ àquilo era pa s’ ir de nôte, tapados com o incerado qu’ ele tem lá, e a Guarda, a essas horas, calhando, eram capazes de tar a comer qualquer coisinha e nã andarem aí na estrada a charingar um e ôtro, pegamos na gente e foi-se tôdes. E inda mái uma pagela deles…

Iam tantos c’m’ dez amalhòfados debaxo desse tal incerado. Tirando o chòfer, o compade Jôquim do Barranco e a c’made C’stóida – qu’ esses, foram na cabine más a minha Maria – era ê cá, o Adelino da Desmoitada, um gozão do pior, o Arraúl Vàlise, que teve na França, o ti Luís Agúida, que tem um mata-velhos mái nã anda de nôte que tem medo, o Martinho do Almarjão, alomeado pre Pata-Rasa, o Tóino Luzicuco, sempe de cigarro na boca, o parente Zé Caçapo, Verruma le chamam, sempe a sovinar, e fico-me pre qui qu’ os ôtes iam tôdes acuados ô canto do taipal e já nem m’ alembra bem quem eles eram…

… bebe-se-le, tamém, um calcesinho dela. Da boa, tá bom de ver…

Nôtes tempos, nã era nada disto. O mái que se podia arrenjar era um carro de besta com uns sês ó sete lugares, nã contando com o carrêro. Quem nã t’vesse carro de besta ó d’nhêro pô alugar, qu’ era o que se dava com quái tôdes, ia a pé ó, calhando a terem um burro na arramada, amontavam-se nele, à vez, e passadas umas quatro ó cinco horas, chigavam o sê destino deles, na Praia do Vau.

Mái nã cudem, lá p’r isso, a galhofa nã f’cava nada atrás do qu’ a famila faz hoje im dia… Mái pra más do que pra menes. Nã veem, é qu’ ir désna de Monchique – levem bem repáiro que d’zer Monchique é o mémo que falar na Serra toda; é o concelho duma ponta à ôta – até à Praia do Vau de carro de besta ó a pé inda levava umas belas horas e a famila tinha qu’ ir logo adiantando algum serviço…

De manêras que, ia-se andando e c’mendo. Uns pexinhos da horta, uns coisinhos de chôriça, uma felhòzinha, umas coisinhas assim… E pa impurrar isso tudo pas goélas abaxo e nã imbassar, o qu’ é qu’ uma pessoa podia fazer?… Tá claro, bubia-se-le uns porrêtes… Ora aquilo dava cá uma enfluêinça!… Nem o caminho custava a andar…

… charola-se e balha-se um belo pôcachinho pa desmoer a pelharcada…

Esta conversa fez-me vir à idéa o que se dé desta vez. O Tóino Luzicuco, sempe com a mania do fumar, que nã pode passar, tava-se a gente tôdes munto bem sa senhora boa vida amalhòfados debaxo do incerado, puxa da su onça ‘Águia‘ dele e do sê livro de papel béque-me da méma marca, tira uma mortalha, despeja-le um coisinho de tabaco pa drento e vá d’ inrolar. Pensí cá pra mim:

– Nã me digam qu’este saganheta vai-se pôr a fumar aqui mémo num sito destes…

Inrolô, inrolô… passô-le cuspinho com a língua na ponta da mortalha, deslizô-le o dedo duma ponta à ôta p’ àquilo colar, dé umas batidinhas com a ponta do cigarro na unha do dedo grande – há quem le chame o mata-piolhos… – e pôse-o na boca. Inda ramordí cá pra mim:

– Eh’q, aquilo, calhando, é só pa ele matar o viço e nã no acende… Senã a gente inda cuda de morrer aqui com falta d’ ar e desata tudo a tossir.

Qual o quem?!… Tã penas olho ôta vez pa ele, já o marafado tinha tirado uma caxa de forfes da alsebêra e toca de puxar um forfe pô acender. Mái, às escuras, o Tóino nã fechô bem a caxa. Ora, nesse mê tempo, o parente Cosme teve que fazer uma travaja a fundo… Só mái tarde é que sube que se l’ atravessô um bicho na frente da camineta… Ele bem qu’inda riscô o forfe, sa senhora, e acendeu-o, mái atão, com o balanço, os ôtes desparceram tôdes da caxa… Desata tudo numa risada:

… e só despôs é que s’ afituramos a ir pa drento d’ água…

– Ai Tóino que lá se foram as tuas acendalhas todas!… E, calhando, o cigarrinho tamém…

– Nã queria mái nada!… O cigarrinho tá aqui na boca e este forfe inda tá im chama. Dêxa-me lá acender o cigarro entes qu’ ele s’ apague…

– Olha lá nã sabes que nã é atorizado fumar im sitos fechados?!… Nã vês qu’ isto aqui é c’m’ se fosse lá na venda do Alferce… Eles lá dêxam-te fumar?…

– Nã vejo aqui nenhum papel na parede a d’zer o contráiro. De manêras que nã se ponha com coisas. Más a más qu’ o sito é bem arejado…

E pôs-se a ver se dava panhado os forfes que tinham caído. Mái atão, com o vento que antrava pa drento do encerado com o andar da camineta, adonde é qu’ eles já tavam… Nem um…

– Bem fêta, qu’ é p’ à ôta vez respêtares. E, agora, munto bem me calhava qu’ o vento tamém te levasse o cigarro da boca…

E dí uma piscadela d’ olho ô ti Zé Caçapo. Ele, pre alguma rezão le chamam o ‘Verruma’, intendé logo, vai assim p’ trás do Tóino Luzicuco, c’m’ quem nã quer a coisa, dá-le um toque de lado com uma mão, ele volta a cara, ô méme tempo, dá-le ôtro toque no cigarro com a ôta mão, lá vai ele pros ares…

Otra risada im forte… Más aí, o Tóino f’cô um coisinho sintido e desatô a d’zer alarvidades. Se nã é o ti Zé Caçapo ser um homem duma certa idade, nã sê nã sê… Inda vi jêtos do Tóino se jogar a ele. Mái a coisa lá atamancô e, dali a um nadinha, tava-se a chigar à Praia do Vau.

… ô fim, volta-se p’ra casa, tôdes sastefêtes, com a trugia toda às costas…

Do que se passô lá méme na arêa da praia já mecêas hã-de saber. Foi tudo munto advertido, a famila incheu tudo o bandulho até mái não. De coisas pa buber, só f’cô lá a água do mar. Quái tôdes balharam, cantaram e uns tantos que t’veram mái fôiteza sempe se jogaram à água pa se lavajarem e p’ à SIC filmar.

Só o que les sê d’zer é que inda pus os caguetes tamém drento d’ água e, d’zer a verdade, nã na achí munto fria, mái c’m’ à minha Maria se tinha desquecido da toalha im casa e as cirôilas qu’ ê cá levava eram novas nã me dava jêto molhá-las logo, só cheguí com a água pros artelhos. Mái hôve menino que antrô lá pa drento e quái que já nem queria sair. Ôtes, atão, insiavam-se duma tal manêra qu’ ê cá até os ôvia méme ali à babuja. E, no mêo daquilo tudo, inda béque-me hôve lá um que vinha a arrabolar inrolado numa onda…

Querendem ver videos e retratos do que se passô lá, vã ô Parente da Refóias na internet.

Dés le dê saúde.