Cegonha-branca (Ciconia ciconia)

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Como poderá verificar numa das fotografias, chegou a hora do amor para as cegonhas brancas que por cá permanecem todo o ano e para aquelas que, eventualmente, já tenham regressado da sua migração de inverno.

Andam todas muito atarefadas – em especial os machos – na guarda à sua casa prevenindo-se de ataques invasores de concorrentes às fêmeas e aos espaço que reocupam ano após ano.

De notar que valeram a pena as medidas protecionistas que foram tomadas há anos atrás quando se chegou a recear encontrar-se em perigo de extinção.

Atualmente, encontra-se numa situação pouco preocupante e julga-se que tenha recuperado para os níveis da primeira metade do século passado.

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A Barragem do Alqueva (2010)


Des que cmá Barraja do Alqueva nã há ôta na Êropa…

Despôs de ter devassado este vídeo, vá í prêbaxo e dê uma bispadela nos retratos e no lanedo q’ a gente fez, inqonto s’ andô no laré desna de manhã até nôte:

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Barragem do AlquevaDes que cmá Barraja do Alqueva nã há ôta na Êropa…

Inda tã alembrados da conversa q’ o mê compad Jôquim do Barranco me fez, ontordia, qondo ê cá le contí que tida id ver a Barraja d’ Odelôca com o parent Tóino Rosa, ó nã fazeram caso diss, cudando q’ a gent os dôs nã se era homens pa abalar caminh do Alqueva?

Pôs, se cudaram, tã munt mal inganadinhes, mês beles amigos… A gent pôs aquil à idéa, o mê compad arrenjô via e já se foi lá ver aquela mechas toda, fazemos boa viaja e já cá tames prontes pa ôtra. Só nã foi o parent Tóino Rosa q’ a gente quis-le mandar recad e nã tvemos portador. Im vez dele, foi o Zé Manel. O filho do compad Jôquim e da cmad Cstóida.

Calhô foi mal o dia nã ter tad um coisinh mái soalhêr. Nã sê se pre qui foi o méme, mái lá aquilo, o astro, teve quái semp toldad e inda panhamos com uns pings im cimba da orgada e tud. Coisa pôca, tamém se diga… que, lá pá banda da tarde, ele até aleviô um coisinh.

Barragem do AlquevaTinha tanta água ó tã pôca q’ a comad Cstóida cudava q’ era o mar…

Mái, com respêt ô rest, foi tud do melhor. E a festa cmeçô log na viaja daqui pa lá, com o Zé Manel a ver se dava indròminad o pai. Aquil, o môce anda afalcoad de dnhêr, q’ ele tã bem o ganha cmo gasta log a seguir – com as moças ó lá com o q’ ele munto bem le dá nos cascs – e, atão, levô o caminho quái tôd a pertar com o pai pa fazer uma aposta.

 Mê pai, posto consigo cmá Barraja do Alqueva é munto maior qá da Odelôca!… Quem perder paga a bucha mái logo num restairante q’ ê cá é que sê. Aquil é jêtoso e, nã s’ abusando munto, fica mái ó menes im conta…

 Tás parv ó quem?!… Quem é que nã sabe q’ a do Alqueva é maior qá ôtra? Atã, des q’ aquilo vai dar à Espanha e ingoliu lá a Aldêa da Luz e tud… Queres fazer de mim inda mái nenso do qàquilo qê cá sô?!…

 Nã posta, nã posta, pronto… Mái, já agora, sabe qontas ilhas é q’ aquilo tem ô todo? Olhe que sã muntas…

 Isso nã sê, mái, calhando, inda tem pa lá um qôrtêrã delas…

 Ai um qôrtêrão!…

 Um cento?…

 Ai um cento…

 Quenhentas?…

Barragem do AlquevaSê cá durante qontas léguas aquil ajunta água?!…

 Ai quenhentas… Mái de mil!… Posto consigo cme tã lá mái de mil ilhas… E nã precisa de ser o almoço. Posta-se só a garrafa do vinho pá gente buber no tal restarante.

 Olha que perdes… Mil é munta ilha, Zé Manel…

 Atã, poste. Tamém, que perca que ganh, uma garrafa de vinh nã é assim gand coisa…

 Tá bem. Tá postad. Uma garrafinha do tinto…

Ê cá, logo, nã liguí munto àquil. Mái o Zé Manel, que nã dá pont sem nó, tôdô caminho foi rapisando no caso. Até q’ ê cá vi q’ ali havia coisa. E havia q’ ê já les conto.

Despôs de se chigar lá e se bispar tudo o que se dé visto:

 Ele era tanta água ó tã pôca qa cmad Cstóida cudava q’ aquilo era o mar – inda pre cimba parcé um pêxe q’ nã les sê incarecer. Aquil era um deparate…

 A barraja a descarregar de tornêrada q’ aventujava a água lá pr’ aqueles ares – pro jêto, pa fazer elecsidad;

 A famila tudo de boca aberta, abismados com uma obra daquelas;

 E ôtras coisas más que nã adianta tar, agora aqui, a falar nelas;

Chigô, atã, a altura d’ ir cmer uma bucha lá ô tal restairante q’ o Zé Manel sabia. É que, desta vez, as mlheres fazeram-se rasmôlgas e nã trazeram farnel pá gente se rapimpar…

Diz ele:

Barragem do AlquevaPunhana, aquil a descarregar água pa fazer elecsidade, até urrava…

 Atã e agora, qontas ilhas tem a barraja? Tem ó nã tem mái de mil?…

 Nã nas contí, mái daqui vej pôcas…

 Ti Refóias, o q’ é que vomecêa diz? Nã le parêce que sã bem pa cima de mil? Diga lá… Diga, diga…
E dé-me uma pescadela d’ olho.

Ora, ê cá, tive que tirar pro moço… Atã havera d’ ir a favor do pai que tem munto mái posses qô filho?!… Dí-le logo os améns…

 Sim, Zé Manel, pr’ aquelas q’ ê tenh levad repáiro, hã-de de ser até um bel coisinh mái do que mil.

 Olhem, vocês os dôs tã-me a levar de trôxa mái tamém uma garrafa de vinh nã é assim nada prí além… Vamos lá más é buchar q’ ê tenh cá uma lazêra…

E lá abalames.

Chigados ô restairante, cada qual escolhé pa cmer lá munto bem o que le dé nas ganas – foi tud o méme: insopado de borreg… – e o Zé Manel foi falar com o homem lá ô balcão. Teve lá um pôcachinho, voltô pá mesa e diz assim cme quem nã quer a coisa:

Barragem do AlquevaA água tava um coisinh suja, mái, meme assim, parcia lá cada pêxe…

 Pronto, o vinh já tá incomendado. Agora vejam lá a figura que fazem. Nã bebam munt que ficam escarades…

Naquil, o homem com uma garrafa do tint, toda bjuda, já a le esptar o saca-rolhas. Abre-a – dé assim aquele estralo de ser uma pinga ô consoante – e despeja um coisinh só pô cop do cpad Jôquim.

Ele fcô a olhar pô copo, espècad, sem saber o que fazer…

 Vá, prove, mê pai. É pa ver s’ ele tá bom…

 Ora tá bom. Com uma cor destas… Encha más é o cop…

O impregad lá despejô pôs copos tôdes – menes pôs das mulheres, que dizem semp que nã gostam de vinh… – prantô a garrafa ali im cimba da mesa e foi-se imbora.

 Ó Zé Manel, tu q’ inda tens bons olhes, lê lá aí o rótalo pá gente saber o q’ é que se vai buber…

 … ora bem, Herdade do Esporão, Reserva 2006, 14,5%… E logo de litro e mêo… É um venhito más ó menes… Mái nã bebam munto que ficam escarados…

 Reserva?!.. Atã já tinhas incmendado isso pá gente, entes, foi?!… – Diz o cpad Jôquim do Barranco.

 Já, já, mê pai. Já lá vai pa quatro anos q’ ele tava aqui de reserva pá gente – Diz o Zé Manel, munto gozão, a antrar com o pai.

Nesse mê tempo, o homem vêo trazer o tal insopado e a conversa fcô pre qui. Comemes e bobemes, o mê compad aguenta pôco… já tava um coisinh escarad. E foi a sorte. Mái nã fez má figura.

Q’ assim, o Zé Manel pedi a conta e nã la amostrô:

Vinho EsporãoFoi méme esta garrafinha q’ o Zé Manel incmendô pá mesa…

 Agora, traga aí uns cafézinhos e a conta. Mái, dê-me-a a mim q’ o mê pai tem munta falta de vista e nã alcança o que tá aí escrit. E o mê parente Refóias tamém já tá com os olhos um coisinh piscos…

Ê vi q’ ele tava tamém a fazer porra de mim, mái nã fiz caso. Cmo pai dele é que pagava a garrafa…

E sabem qonto é q’ ela le custô? Vô-les dzer aqui, mái vomecêas nã le contem nada. É q’ o homem inda hoje nã sabe q’ o Zé Manel pegô-le na cartêra, pagô a part deles os três e a coisa passô adiente…

Pôs, só a garrafinha, foram trintas eros!… Punhana!… Mái lá q’ ele era do bom, era…

E dali, sabem pr’ adonde abalames? Nem mái nem menes pra donde a tal garrafinha foi fêta: a tal Herdade do Esporão.

S’ ê cá, uma ocasião, tver jêt, logo les conto a nossa vsita a essa dita adega.

A Cascata do Barbelote (2010)


Acalque aqui e advirta-se com este vídeo…

Andí paí com uma catarrêra, quái que nem saí do monte mái duma semana. A minha Maria, premêro, queria q’ ê cá fosse ô dôtor – pro jêto, tava com cagúifa q’ aquilo fosse a tal gripe marafada q’ eles paí falam… – mái, odespôs, c’m’ viu q’ isto era só uma constpação, disse-me logo:

– Ó homem, nã te rales q’ isso é cmo ôtro que diz: uma constpação tratada dura trinta dias e nã tratada dura trinta e um…

E, atão, foi-me fazendo p’ aí uns chás nã sê do quem e a coisa foi-se compondo. Q’ ela, antão, já sabe que, cá pra mim, há chás que nã antram na minha goéla… Olhe, prixempes, o de hortalão, era o que faltava… Des q’ aquilo, nas minhas idades, dá um resultado escamungado e nã vá um homem fcar paí de jum e abstenênça…

Mái, cmá coisa já ia correndo bem, um destes dias abalí caminho do monte dos mês compadres. Nã foi lá gande idéa quo caminho tá um coisinho imbalsado e aquilo tinha caído um garrão na madrugada, as tôiças tavam todas orvalhadas. Mái leví umas botas de cano alto, lá me defendí c’m’ pude.

No caminho pá Cascata do Barbelote dá-se com esta vista…

Ia chigando perto da rua deles, desato a ôvir duas criaturas:

– Tal tem achado a esta enverna toda, prima Qestóida?…

– Dzer a verdade, já tá tudo prí bem orvalhado… A rôpa, bem na lavo, mái atão e pa ela secar… É uns trabalhos, parente Zé…

– S’ os mês cudados fossem esses… A rôpa, ê cá inxugo-a méme ô pé do fogo, cmá minha Larinda – que Dés a tenha im bom lugar – fazia.

– Eh!… Mái isso fica tudo chêrando a fumo qué um desconsolo… E é só rôpa miúda, q’ umas peças assim maiorinhas cmé que mecêa as pindura nas costas duma cadêra?

– Ê cá m’ amanho… O que me tem dado cudados ô bem fêto nã é isso. É umas batatas quê tinha lá bem abrulhadinhas pa samear e, com esta enverna toda, nã nas dí metido debaxo terra.

– Samêe-as um destes dias, em o tempo alevantando aí um coisinho. Inda vai a tempo…

– Agora?!… Têm uns abrulhos quái da minha altura… S’ as ponho na terra, ficam com eles um palmo de fora, vem p’ aí algum geadão, daqueles de dente de cão, nã escapa nem uma…

Em caindo um bom garrão dágua, a Cascata do Barbelote fica neste estado…

– Ó parente, mecêa tamém… Sossegue p’ aí quo bom tempo logo parêce…

Isto era o mê parente Zé Caçapo a conversar com a minha qemade Qestóida. Logo, nã deram pre mim. Más ê cá dí assim uma tossidela c’m’ quem tava a alimpar o pigarro e eles viraram-se pô mê lado. A cmad Qestóida aprevêtô logo o atôpo pa me pôr à balha:

– Olha o compade Refóias… Atã o qué se tem fêto? Já há uns belos dias que nã no via. Tem andado com medo do tempo ó quem?…

– Que jêto medo… Tá-se é munto melhor aconchigados ô pé do fogo do qandar a panhar frio aí pro mêo das sobrêras…

E o parente ‘Verruma’ – ‘Verruma’ é o anexim do parente Zé Caçapo – semp munto cão, meté-se logo tamém:

– Pôs, lá isso medo nã há-de mecêa ter… Tenho ôvisto falar que, quái tôdes dias o têm lombrigado lá pàs bandas do Brabelote… Com chuva e navoêro e tudo… Tem pa lá algum arrenjinho ó quem?… Tenho más é que ter uma conversa com a cmad Maria. Ah isso tenho…

– Lá tã vancêas semp com coisas… Nã pode uma pessoa fazer coisíssema nenhuma qanda logo tudo a bispar… Fui lá sa senhora. E o q’ é que têm com isso?

– Nã le parêça mal, parente. Isto é só uma conversa… Mái tamém nã le gabo o gosto d’ ir bem lá pa uns furjacos daqueles fazer nã sê o quem, im dias que nã se vê quái um palmo à frente do nariz…

Pa quem se quêra molhar e ir lá pa debaxo dela, tira retratos assim à Cascata do Barbelote…

– Bem sabe que fui ver aquela queda d’ água que tá lá e, qondo ele chove a precêto é q’ ela tem que ver. E vomecêa se tevesse querido ir com-migo cmê cá le disse na béspra, nã tinha fecado repeso.

– Ehq!… Querendo ver água vô ali im baxo à rebêra… Mái diga-me lá uma coisa. Aquela água toda que cai lá na Cascata do Brabelote vem d’ adonde, sabe?

– Se mecêa lá fosse, via logo dadonde vinha… Vem daqueles córgos todos q’ abalam lá de cimba do lado da Moita e dos Lamatêros… Dadonde é que queria que viesse?..

– Sê cá, aquilo béque-me nã tem assim munta comprimenta e ajunta logo um poder d’ água qué uma coisa temente…

– Lá isso é verdade. Mái aquele vertente da Fóia sempe foi um sito de munta água. E vindo um tempo assim chuvoso cmo ele tem vindo agora, ajunta lá uma rebêrada qaté…

– Há-de ter que ver…

– Se queria saber, fosse lá com-migo. Agora, só se pedir ali ô Zé Manel que lamostre os retratos q’ ê cá tirí e pus na internet… Tá bem que nã fecaram gande coisa qo tempo tava ruinzíssemo – chovia, fazia navoêro, aventava… era tudo contre – mái semp’e dá pa ver quasequer coisinha.

Em envernando bem cmo este ano, a Cascata do Barbelote fica desta manêra…

– Ehq, ê cá nã tenho vagar pa essas coisas da internet ó lá o que é…. Vô-me más é caminho de casa tratar dos bichos qisto anoitêce logo im mêa tarde…

– Ó parente Zé, nã tenha medo qo comptador nã le morde!… Se nã quer ir ver ô do Zé Manel, venha com-migo e vê-se àlém no meu. Leva é um coisinho mái tempo. Q’ ele até aquecer…

– Nã, nã… Vô-me andando quos bichos têm fome. Esta manhã só le dí pa lá um retraço àquela mêa-dúiza de bicos que tenho lá no galinhêro e, ô sovão, joguí-le uns sarguaços pô do curral e nem o vi qele tava incafuado lá pa drento da cuêra. Fiquem-se com Dés.

O mê parente ‘Verruma’ é assim. Em le dando um derrepente, abala e vai-se imbora. Vá lá qinda se despediu, q’ ele, qondo calha, nã diz nada e qondo se dá por ele já ele estrapôs pô lado do monte. Más a minha cmad Qestóida tamém gosta do palêo e fecamos os dôs a dar à tramela:

– Ó compade Refóias, mecêa diz q’ essa coisa da Cascata do Barbelote que levava munta água, mái atão ê cá, uma ocasião, fui lá e aquilo tava tudo quái seco… Veja já se tá paí a infiar alguma pua à famila…

Só más esta qé pa verem bem a lindeza daquilo…

– Que jêto?!… Calhando, mecêa foi lá no Verão…

– Pôs, nã malembra bem, mái aquilo havera de ser fins de S. Tiago prencipos dagosto…

– Atão, nesse tempo, o qué que mecêa queria… Aquilo corre água im forte é agora no enverno. Em dêxando de chover, a água vai-se desgotando e chega uma altura qé cmaqui a nossa rebêra. Ó seca dum todo ó só leva alguma pinguinha dágua que resuma do terreno nalgum sito mái fresco.

– Ai sê cá gostava de ver isso, assim ô natural, qondo ela corre munta… Mái atão, o mê Jôquim nunca sopõe a essas coisas…

– Tem toda a rezão, qemadre. Aquilo, quem vai lá agora nesta altura, nã dá o tempo pre mal impregue. Pode é panhar com uma carga dágua im cimba da lombêra e tem de puxar bem plas canôiras qo caminho é munto imbargoso.

– Pôs, isso atão, caminho mái impinado do qàquele é má d’ incontrar…

E mecêas, mês belos amigos, os mái foitos, em podendem logo dão lá uma bispadela assim num dia que caia uma boa ripada dágua.

E, pro caminho, tenham munto cudadinho nã estraguem umas tôiças verde-negras que pre lá há, parte das vezes, masturadas com balsas. Sã adelfêras. E tamém nã façam selada com as folhas delas. Senão, esticam o pernil.

Saudinha da boa.

Eclipse Total e Super-Lua-de-Sangue-de-Lobo – 21-01-2019

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A lua através da minha máquina. Fotografias de muito fraca qualidade, mas as possíveis.

Foi uma lua em triplicado: cheia, super e de sangue de lobo…

É do conhecimento geral o que essas designações significam, mas a que acho mais interessante é a ‘lua-de-sangue-de-lobo’. Porquê? Porque é de origem exclusivamente popular, não tem nada a ver com a ciência, mas revela o romantismo e a criatividade do ser humano quando se vê confrontado com fenómenos que não domina completamente.

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A Geada-dente-de-cão

Geada -dente-de-cãoHá já bem munto tempo que nã via geada-dente-de-cão cmo esta…

Nã sê se vomecêas já alguma vez viram geada ó não. Calhando, munto menes viram daquela de dente de cão, qu’ era coisa que, qondo ê cá era môce-pequene, caía muntas vezes.

Alembrí-me a falar disto premode um caso que se dé com-migo, inda há bem pôco tempo, numa volta quê cá fui dar com a minha Maria e mái uma carrada de famila. Foi-se numa excursão queles fazeram paí no Intrudo pa quem quesesse ir ver as Grutas d’ Aracena e dar pre lá umas voltas à pata.

Aquilo iam pa lá coisa dumas trinta ó qôrenta pessoas, más um menes um, tudo munto adevertido e fêtinhos pa dar à perna, mái atão o tempo nã corré à nossa fêção e só no permêro dia é qu’ inda andemos quasequer coisinha de jêto. E, méme assim, com um geadão, uma coisa temente…

Alevantamos-se de manhãzinha bem cedo, rapimpamos-se com um quebra-jum queles deram lá na pensão – aquilo era quái à descrição, ora, hôve menino qu’ incheu a pança logo pô dia entêro… – prantaram com a famila toda drento da camineta e foram largar a gente a umas belas cinco ó sês léguas de lonjura.

Geada-dente-de-cãoEra preciso ter munta conta pa nã se dar algum escorregão…

Tã penas abriram a porta da camineta, ê cá fui logo o premêro a sair que, com a barrigada que panhí ô café, já nã ia lá munto bom cá pe drento. Nã é quê use a nã prosar, quisso a minha Maria é que l’ acontêce quái sempre, mái o chòfer dava as curvas qu’ até zunia e, atão, béque-me sintia já assim umas ãinsas e, dora im qonto, até me vinha assim – com lecença da palavra – um gole à boca.

De manêras que saí logo de rompante, panho aquele ar frio qu’ até cortava, digo pra mim:

– Ai que barbêro quele tá aí!… Minhas belas orelhas!…

E, dezer a verdade, inda joguí assim a mão a uma e quái que me parceu quela tava a incurrascar. E a ponta do nariz?!… Ai a ponta do nariz, mês belos amigos!… Nã sê se me doía se nã na sintia…

Mái nã foi sol de munta dura quê cá desqueci-me logo disso tudo. E isso premode quem? É que dí com os olhos numas tôiças que tavam logo da bandinha de lá da valeta, tudo branquinho. Nã é quê cá nã tevesse já repairado, durante o caminho, que tinha caído um geadão marafado e tava tudo esbranquiçado, mái daquela ali já há mái que tempos quê nã na via…

– Nã vês, Maria… Olha lá pra isto!… Esta é de dente de cão!…

– Õi!… Que frio!… Olha lá, sê calho a nã trazer o mê barrêtinho de lã pa pôr na cabeça…

Geada-dente-de-cãoCada passada quma pessoa dava ôvia a geada a se esmigalhar debaxo dos pés…

E, inda mal nã tinha acabado de falar, já o tava a infiar na cabeça até ô canto de baxo das orelhas. Já do mémo nã me pude ê gabar que nem pensí im tal coisa. Sim, quê cá podia munto bem ter levado o mê boné d’ orelhas e tava governado… Mái dêxí-o im casa. Alguma vez ê cudava dir dar com uma coisa daquelas assim tã desviado do monte?!…

O resto da famila que saíu à última da camineta tamém se foram aconchigando com os agasalhos que cada um trazia, mái faziam todos uma clamada qu’ até dava dó. Menes um que vinha lá no banco de trás – tenho tado aqui a ver se me descorre o nome dele mái nã m’ alembra. Esse, más um nada, fecava fechado drento da camineta. Aquilo foi méme à escapúla…

Pro jêto, o homem tinha perdido a nôte, assantô-se lá no banco de trás sozinho, ferrô a dromir, já tinha tudo abalado a andar qondo ele acordô e se viu na camineta sem companha. Desatô a bater no vrido e a chemar pra gente, vá lá qu’ inda hôve quem desse por ela…

Saíu de lá, vinha béque-me mê insampado, deu uma carrêra à mecha toda, aparô um coisinho à minha frente e desata a lambarear. O que me havera d’ acabedar… Logo a mim que queria tirar retratos e nã me calhava nada ir ali a tramelear fosse lá com quem fosse. Vá lá quele, logo a seguir, virô-se pô ôte lado, ia uma moça toda jêtosa ali sozinha, fecô todo crençoso com ela e desquecé-se de mim.

Campo de castanheiros (Castanea sativa)Pro jêto, os castanhêros gostam destes sitos adonde faça frio com fartura…

Ora ê cá aprevêtí logo o atopo, ponho-me a andar ali prê fora a tirar retratos à manadia que foi um consolo. Um consolo até que pisí uma pôça d’ água – cudava ê cá quera água… – e dí um escorregão. Olhem, aquilo, más um nada, dava tamém um bate-cu que ficava todo enlameado, más agarrí-me ali a um tróço dum castanhêro, enquilibrí-me e a coisa nã teve dúveda…

Já agora, pre falar im castanhêros, nã sê c’m’ les incarecer aquilo que pre lá vi. Andamos bem umas duas léguas – pra más que pra menes – e nã se via ôutra coisa que nã fosse tal arve. Mái, nã cudem, tudo alvoredo desposto im carrêras c’m’ deve de ser, tratados a tempo e horas e tudo munto mái velho do quê cá ó vomecêas…

Ora mái velhos… Até me dezeram que tavam lá alguns que, se nã tevessem duzentos anos, pa lá caminhavam… E ôtra coisa: ali ninguém corta uma arve daquelas ó a trata mal. Nã senhora. Nem que seja pôs podar, premêro têm que pedir lecença lá a quem manda naquilo. Calitros?!… Isso pre aquelas bandas nã há tal peste…

Calhando mecêas nã se fiam em mim, podem cudar quê cá tô a abusar, mái tejam certos qu’ aquilo é uma coisa quái do ôte mundo. Im tamanho, im tar bem arrenjado e im qôlidade. Fiquem sabendo que, méme nesta altura, inda panhí lá umas castanhitas per aqueles charazes e tavam quái todas boas pa quemer.

Campo de castanheiros (Castanea sativa)Im castanhêros, nunca tinha visto uma coisa assim. Grandes, bem tratados e muntos…

E boas quelas eram… Despôs d’ incher a barriga é que me vêo à idéa uma coisa: já haveram d’ andar um coisinho chafurdadas dos porcos brabos – javalis, le chamam… Mái já me tinha rapimpado com elas e bicho nã tinham… E que tevessem. Nã se usa a dezer que ‘bicho quê como nã me come ele a mim’?…

Pôs, nã sê se mecêas inda tã alembrados – os mái velhos cmê cá, quos mái nôvos, esses não – já hôve tempo qu’ aqui na nossa Serra tamém havia muntos castanhêros e a famila pôco mái cmia do que castanhas.

Batatas nã as havia, pão munto pôco, vá lá umas bejoarias quem as tinha, e, atão, eram as castanhas qu’ andavam sempe pà frente. Pa nã apodrecerem, até se gôrdavam com todo o precêto. Inda m’ alembra do mê pai – que Dés o tenha… – as interrar im arêa seca drento dum corcho e, em sendo preciso, ir-se lá desinterrá-las…

Gruta das Maravilhas - AracenaAtã nã vêm este lindo serviço?… Iste é béque-me o retrato do que há lá drento das grutas…

Mái, calem-se aí!… O melhor inda tava pra vir…

Ô fim da viaja, em chigando lá a esse tal sito adonde há as tales Grutas d’ Aracena, vinha já com os bofes de fora, assantí-me no premêro banco que me parceu na frente lá num jardim.

Logo, nã dí pre nada. A minha Maria assanta-se na ôtra ponta do banco e dá im me dar sinal

– Diz lá o que queres, melher…

E ela, nada… Só apontava pàs costas do banco e dava assim uma carcachada de gozo…

Até que se resolveu:

– Atã nã vês?!… Olha lá bem praí…

Olhí mái nã alcançava quái nada. Pus as minhas cangalhas, olhí melhor… ai, mãe! dô com aquele desenho que tá ali no retrato… Até me fiz incarnado, com vergonha!…

Nisto, vinha chigando a minha quemade Questóida más o mê compadre Jôquim do Barranco que tinham fecado pa trás… Dô um salto, fequi logo assantado ô mêo do banco munto bem incostadinho a tapar aquela trugia que tá no desenho pa eles nã verem…

Um dia que calhe, logo les conto o resto que se passou a seguir. Tá bom de ver qua minha Maria e a quemade Questóida, marafadas c’m’ são, puseram-se logo a mangar com-migo e fazeram um cagaçal do pior…

E pre qui me fico.

Passem bem e até que Dés quêra.

Abutre-de-Rüppell ou Grifo-Pedrês (Gyps rueppellii)

Abutre-de-Rüppell ou Grifo-Pedrês (Gyps rueppellii)

Abutre-de-Rüppell ou Grifo-Pedrês (Gyps rueppellii) é uma ave com uma envergadura invejável. Um adulto chega a medir 2,6 metros da ponta duma asa à ponta da outra.

Tem uma aptidão especial para voar a grandes altitudes – na ordem dos 6.000 metros… – e costuma agrupar-se em bandos que, por vezes, ultrapassam os 2.000 indivíduos.

Uma outra curiosidade, segundo consta, é que o seu pescoço passa de rosa a púrpura quando o animal se excita.

O resto está à vista…

Abutre-de-Rüppell ou Grifo-Pedrês (Gyps rueppellii)

Tocadores de fole e Artechique – 2010

Tocador-de-concertinaTal acham esta concertina? E inda toca melhor que muntos foles modernos…

– Se nã vieste à festa dos tocadores de fole, nã sabes qonto perdeste!… E à Fêra do Artesanato tamém. Más ê cá, dezer a verdade, gosto mái dos toques de fole que do resto…

– Ai nã fui… A si é quê cá nã no vi lá. Fique sabendo que nã perdi nem uma moda. Fui bem cedinho, assantí-me numa cadêra e vi aquilo tudo do prencipo ô fim.

– Ai teveste assantado… Qualquer um nã tem essa sorte. Tá bom de ver que só panha lugares desses quem tenha pazes com a famila lá da Junta… Nã é verdade, Refóias?… – E piscô-me o olho, a ver sê cá l’e dava os améns.

Isto era a conversa quo Martinho do Almarjão tava a ter com o Tóino Luzicuco, uma tarde destas, ali memo no Largo dos Chorons, qondo ê cá lá passí caminho além da loja do chinês a ver se dava lá com uma farramenta quê cá tinha preciso pa um serviço que já tenho aqui há que tempos pre fazer.

O quê tinha fêto bem era nã ter levado repáiro neles, fazer de conta que nã nos tinha visto e ir fazer o mê governo, mái as coisas são cme são e, atão, lá les dí uma vaiazinha, méme me parecendo queles tavam os dôs um coisinho escorvados. E tavam mémo. Mòrmente o Tóino Luzicuco qu’ abalô do Alferce logo de manhão e, até àquela hora, inda nã tinha comido coisíssema nenhuma. Só bobido.

Adelino Cruzinha - Tocador-de-foleO amigo Adelino ‘Cruzinha‘ toca cá umas modas quaté dá gosto…

– Atã, digam-me lá uma coisa: no fim de resto foram os dôs ver os homens tocar os foles ali no Encontro de Acordeonistas ó só foi um ó nã foi más é nenhum?…

– Foi-se os dôs, sim, Refóias. Ê cá é que tava a mangar aqui com o Tóino, a ver s’ ele tinha dado pre mim lá, mái vi logo qu’ ele tava tã emprensado lá na tal cadêra da Junta que nem olhava fosse pa donde fosse a nã ser pôs tocadores…

– Atão?… Queria quê cá andasse a ver so lombrigava lá no mêo daquela famila toda?… Era o que faltava!… Ê fui lá foi pa ver eles tocarem aquelas lidessíssemas modas nos foles…

– E nem repairaste im mim que tava ali incostado à parede pa me furtar à soalhêra. Tu cme tavas ali à sombra das tilêras…

– Tevesse ido mái cedo que panhava tamém um lugar cmô meu. E nã era preciso ter pazes com a famila da Junta quê cá tamém nã tenho…

Dezia o Tóino a fazer-se munto sentido ô mémo tempo que largava a mão do tróço da tilêra adonde tava incostado e dava um gangueão tã grande ó tã pequeno que quái que dava uma marrada no Martinho do Almarjão.

Jovem tocador-de-foleEle há prí uns mecinhos nôvos que tamém já tocam quasequer coisinha…

– Quem nã tem sê eu. Agora tu, nã sê, nã sê… Mái chega-te pra lá nã me faças pr’ aqui bater a apèraja. Nã vês que quái que me ias pisando a bota e ê tenho aqui um calo que nã pode ser trelhado…

Respondeu o Martinho já um coisinho infèzado, béque-me quái com o sãingue a le chigar às ventas. Atalhí logo:

– Nã te marafes, Martinho. O homem nã fez isso d’ aprepósito… Mái já que vieram os dôs ver os tocadores, que tal acharam?… Ê cá só vi praí uma àmetade. Tive um impendiclo…

– Sê cá se vieste, Refóias. Atã ê cá nã te cheguí a ver prí… E, despôs das modas, inda m’ assomí ali às barrecas do artesanato e tudo…

– Tanto que vinhe qu’ até tenho lá im casa uma mêa-dúiza de retratos pa apresentar, méme ruins… Nã vês, Martinho, aquilo tava uma soàlhêra qu’ até quem-mava, incostí-me ali a um cantinho à sombra com a minha Maria e dali nã saí senã qondo tive precisão disso.

– Atã e nã amostras isso à gente?…

– Olha, pede aí a quem quereres que t’ as amostre qu’ elas vão ser todas postas na internet. Aquilo dos computadores qua gente dá visto lá tudo o que quer e o que nã quer… Tá num sito alomeado pre ‘Vídeos do Refóias’ e ‘Galeria do XXIII Encontro de Acordeonistas’.

– Ó amigo Refóias, atã e ê cá tamém posso ver isso ó quem?…

Artesãs de trapologiaCom trapos velhos tamém há quem faça coisas bonitas. Cmo estas da parenta Marí Júlia…

– Olha, Tóino, em te passando essa pelhega tamém dás visto. Agora já, calhando, é melhor não. Sabes que jêto? É que, da manêra cme tu tás, o mái certo é veres tudo ôs pares e fecares inda más almareado…

– Almareado, ê cá?!… Olhe pra isto!…

E, béque-me, fez a amenção d’ alevantar assim o pé, cme quem quesesse fazer um quatro pa amostrar que nã tava escarado. E o qué que se deu?… Más um lóre pô lado do Martinho que, se nã é ele le jogar a mão à manga da jaqueta, tinha-se espatarrado no mêo do chão…

– Atã e com respêto ô artesanato – que dos tocadores já vi que gostaram os dôs munto, méme sem me contarem – tamém foi alguma coisa de jêto?

– Ora se foi… Tinha ali uma barreca adonde vendiam umas emperiais, tava méme fresquinha a marafada da cerveja… Comprí uma chôricinha pa acompanhar, nã le digo nada…

– Ê vi logo qu’ era praí que tu imbicavas… Pô lado lá daquelas coisas tã bem fêtas qua famila tinha lá pà gente bispar, isso, tá bom de ver, nã parceste…

– Atã cmé quê cá tinha tempo pa tudo?… Se tava numa banda nã tava nôtra. Só se tá adonde se parêce…

Salta logo o Martinho:

José Inácio Rosa (José 'Ilídio' para os amigos) artesão de vimeO amigo Zé Ilídio tamém impalhô uns garrafanitos aqui na Artechique…

– Nã senhora, ê cá tamém vi lá isso… Até tava lá uma parenta tua com umas coisas quela faz com trapos. Umas bolsas, umas toalhas, aventás e tal e tal… E, olha, pa te falar verdade, aquilo até que tava muntíssemo de bem fêto. Nã sê cmé quela arrenja pacência pa tanto…

– Ê cá tamém vi…

– E nã era só ela. Tavam lá mái umas duas ó três com o mémo. Tudo munto jêtoso. E nã era só isso…

– Pôs não…

– Atã se sabes, diz lá tu, Tóino… O qué que tava lá más?…

– Ora, tavam ôtras coisas…

– Ôtras coisas, ôtras coisas…

Tu nã passaste da barreca da cerveja pà banda de lá, cmé que tu há-des saber…

– …

– Viste a verga? As cadêras de tisoira? E prí fora?…

– Atã nã havera de ver?!… Vi tudo, sa senhora…

– Inda agora dezeste uma coisa, agora dizes ôtra. Vai más é indròminar ôtro…

Encontro de tocadores-de-foleA Senhora Presidenta da Junta é que foi dar as lembranças ôs tocadores de fole…

E a conversa inda tava pa durar sê cá nã tevesse mái nada pa fazer. Mái cme nã tava pa perder o mê governo, despedi-me e fui andando. Tamém, nã tenho precisão nenhuma de falar mái nada da Artechique que mecêas foram lá todos ver aquilo e, atão, é melhor nã nos tar a impertenecer. Mái que aquilo tava do melhor, lá isse tava. Nã les parêce?

Agora, querendem, podem ver alguns tocadores de fole e más alguns retratos da Artechique. É só acalcarem aqui na Galeria dos Vídeos do Refóias e na Galeria do XXIII Encontro de Acordeonistas.

Ó atão, vejam logo aí prebaxinho e oiçam umas modinhas à manêra.

Fiquem-se com Dés.

Galeirão-comum (Fulica atra)

Para ver o slideshow, clique na imagem, se faz favor.

O Galeirão-comum (Fulica atra) é uma ave aquática com caraterísticas muito semelhantes à Galinha-de-água (Gallinula chloropus) que apresentei aqui há uns largos meses com a promessa de fazer também este slideshow de hoje.

Têm uma alimentação semelhante, são omnívoras, muito territoriais e frequentam principalmente cursos de água doce, charcas, lagos, lagoas e zonas alagadiças ou pantanosas.

Proponho-lhe, então, que percorra um pouco da história da vida desta ave através das fotografias que fui obtendo no decurso dos últimos cinco anos.

Para ver o slideshow, clique na imagem, se faz favor.

Em ‘Noite de Reis’ tamém se cantaram as ‘Janeiras’ – 2011


Jolda 'Os Amigos da Fóia'‘Os Amigos da Fóia’, fardados com o sê bonézinho deles, nem sê o que les diga… Sã do melhor que possa ser e haver…

Inda agora aqui cheguí
já les vô a prècurar
se tã bonzinhos de saúde
dã lecença dê cantar…

– Ó parente Zé, cantar o quem?!… Isso foi ontem à nôte. Hoje já é Dia de Rês e, daquem nada, é solposto…

– E quem é que le diz o contráiro?… Sará de caso quê cá já nã possa arremedar aqui um coisinho daquilo queles cantaram, a noite passada, lá no café da Fonte dos Chorons?…

– Poder, pode. Mái que mechas de estilo é esse que mecêa usa qu’ até faz cocégas nas orelhas duma pessoa?!…

– Lá sabe vomecêa um estilo melhor… Cante-o lá quê cá sempe gostava de ver. Vá, parente Jôquim, vá. Mostre lá a sua vertude!…

Isto era a conversa do parente Zé Caçapo, o ‘Verruma’ le chamam, com o mê compade Jôquim do Barranco, im Dia de Rês, os dôs afincados a buber uns copinhos ali no café de cima, já im mêa tarde, qué que me quem diz, quái à noitinha, qu’ isto, agora, os dias nã sã nada. Tã penas o sol cmeça a decer, assim se põe, im menes dum foguete.

'As Figueirinhas' e 'Os Amigos da Figueira'Lá de baxo, do Algarve, vieram ‘As Figueirinhas’ e ‘Os Amigos da Figueira’. Que bela jolda..

Pro jêto, tanto se faz um cmo ôtro, tinham ido, na ôta noite atrás, ver as joldas que vieram ali ô restairante da Fonte dos Chorons cantar os Rês. Os Rês e as Janêras, qu’ isto, agora, já a famila nã tá pa se dar ô trabalho d’ andar aí de porta im porta a cantar tal coisa, na passaja do ano e na nôte de rês, às tensas de le darem um convindado que vá nem venha… E, atão, fazem tudo pre junto.

Ora, a Junta arrenja manêra da famila s’ ajuntar ali no dito restairante e, quem quêra, dá o nome e vai lá cantar. Aquilo, com jêtinho e nã dêxando a coisa munto pô fim, cmê cá fiz desta vez, inda se panha uma felhòzinha pa dar ô dente e um calcesinho de melosa pa alimpar as goélas. Premode, tudo dado pra Junta. E fazem eles munto bem. Que nunca le dôia as manitas…

Pôs ê cá tamém parcí pre lá este ano. Mái fui sòzinho qua minha Maria nã teve jêto de largar o monte e fecô im casa nã sê se dando pontos ó fazendo ôto governo quasequer. Ô certo, ô certo, é quê cá, quando chiguí a casa, já bem de madrugada – era quái uma hora, nã cudem… – já ela tava, munto bem sa senhora boa vida, espatarrada im cimba da cama, a dromir, com a telvisão num barulho parvo. Mái, em ela tendo sono, nem que passe o comboio…

Jolda da LudotecaOs meçalhos da Jolda da Ludoteca tamém já cantavam qualquer coisinha. E tava lá uma mecinha qu’ era munto ingraçada…

E, vai daí, até qu’ aquilo foi uma coisa quê cá gostí. Más olhem que gostí ô bem fêto. Parceram lá umas joldazalhas de mecinhes e tal… quma pessoa já sabia que nã era coisa prí àlém, más é bom qué pa ver sos nôvos nã dêxam perder estes questumes qua famila tinha nos tempos dos avózes deles – que sô ê cá e ôtros cmo eu.

Mái tamém parceram lá ôtres, mormente duas joldas, qu’ eram de ver e chorar pre más. Olhem, uma vêo da Feguêra, lá de baxo, do Algarve. Tinha duas joldas masturadas. Uma de melheres, ôtra d’ homens. Foi uma coisa da pontinha da orelha!… Dava gosto, mês beles amigos. Assim, sim!… Chemavam-se ‘As Figueirinhas e Os amigos da Figueira’.

A ôtra, era de cá. Sã ‘Os amigos da Fóia’. Ah môces marafados!… Té se m’ arrepiaram os cabelos… Desataram a cantar ‘Os Rês’ – queles, atão, nã cantaram ‘As Janêras’ – nunca tinha visto uma coisa assim. Os apontadores eram do melhor, os foles eram uma classe, o estilo era do antigo, e os cantadores cantavam que nem passarinhos… E, nã cudem, tinham farda. Trajavam todos de boné igual…

Havia filhós de ofertaCom um boné destes, uma felhó que nem um capacho e ôvindo joldas a cantar ‘Os Rês’, quem é que nã há-de tar sastefêto…

De manêras que, cmê cá já falí lá atrás, com aquela enfluêinça de ver tudo munto bem sem perder coisíssema nenhuma, fequí sem felhó. Uma mecinha que tava lá à porta da antrada, qondo ê cá chiguí, bem me dé um papelinho e disse-me assim ô ôvido:

– Em l’ apetecendo, apresente-se ali ô balcão com este papelinho queles dã-le uma felhòzinha e um copinho de qualquer coisa. É pre conta da Junta…

– Tá bem – disse ê cá – e Dés le pague m’t’agradecido.

E fequí-me a lember, uma preçanada de tempo, sempe com o fito na felhó e no tal calcesinho dela. Quê cá, atão, béque-me melosa nã gosto munto. Isso é bobida mái de melher. Agora, um calcesinho dela, da boa, isso cai que nem ginjas!…

Mái qonto mái me lembia, mái perdia… Ê cá havera era de ter ido logo lá tratar do caso. C’m’ nã fui, barimbí-me… Im vez disso pus-me a bispar tudo de fio a pavio… atrás duma jolda vinha ôtra, ora… qondo dí pre mim foi já no fim, já ‘Os Amigos da Fóia’ lá iam pra rua afora e ê cá atrás deles. Aí vê-me a felhó à idéa, abalí a fugir ô café, cheguí lá todo escalfado e prècuri à mecinha que tava do lado de drento do balcão:

Jolda do CNE e das Guias de PortugalO CNE e as Guias de Portugal apresentaram-se com esta jolda. Dá gosto ver qos nôvos tamém aprecêam estas coisas…

– Menina, atã inda há prí uma felhòzinha cá pô Parente?

– Felhós?!… A uma hora destas?!… Ai, Parente, tenha pacênça mái já nã há nada disso… Atã, agora é que vem?!…

– Olha que cachamorra esta… Atã ê cá cudava que, em tendo uma senha destas na mão, fecava sempe aí uma f’lhòzinha gôrdada pra mim…

– Põs era pa tar, era… Mái, atão, a uma hora destas, o qué que mecêa quer… Méme que tevesse sobrado alguma, já a gente tinha qua ter jogado pô balde das lavaduras…

– Nã me diga que jogaram a minha?!…

– Alguma vez?!… Onde sará quela vai a estas horas… Calhando, já tá até desmoída e tudo…

– Ai a minha pôca sorte!… Minha bela felhòzinha… Atã sê cá sabesse disso, nã tinha vindo logo aprevêtá-la assim que chiguí?!…

– Atã, pronto. À ôtra vez, já sabe. Nã se ponha a pôco qué pa nã dar nisto. E tome lá uma calcesinho de melosa pa nã perder tudo…

– Melosa?!… Nã pode ser de madronho, menina? É qua melosa é ruim pôs diabêtes. Quê cá, graças ô Devino Pai, nã tenho tal mal, mái quero-me furtar a ele…

– Atã, vá lá um copinho d’ aguardente…

E lá me deu um copinho. E, d’ agora im diante, mês belos amigos, nunca mái caio nôtra. Tã penas lá chegue, passem pra cá o que me acabedar…

Jolda improvisadaEstes meçalhos nem nome tinham. E tamém nã cantavam nada que se dezesse benza-te Dés. Mái que eram bem caçados, lá isse eram…

Mái dêxando isso pa trás das costas e desquecendo uma desfortuna tã grande que foi um homem fecar sem felhó em Noite de Rês – vá lá, vá lá qu’ inda panhí o tal calcesinho dela – sempe les digo que coisas destas – a alembrar os nossos usos e questumes – nunca haveram d’ acabar…

E, isto, agora, é só uma conversa. De parvo, tá bom de ver… Mái, cá pa mê gosto, inda gabava de ver a nôte de rês sem aquela aparelhaja que tava lá no café. As joldas a cantarem c’m’ nôtres tempes. Sem alte-falantes, nem nada. Tenho cá pra mim, quera melhor. Mái a Junta é que sabe…

E tamém gostava de ver o qué qu’ ‘Os Amigos da Fóia’ eram capazes de fazer se tevessem um axilozinho da Junta ó da Cambra pa nã dêxarem este questume das janêras e dos rês levar semiço. Nã era preciso grandes coisas. Mái, cmá senhora Presidenta já me disse qu’ ia pensar no caso, posso dromir im sossego.

Agora, ôtra coisa. Ê cá tirí pa lá uns retratos e uns videozalhos. Fecô tudo uma prequêra, que, à uma, o artista é fraco, e, à ôtra, tava tudo munto pertado e às ‘scuras. E, agora, inda pre cimba, há uma remessa de dias quê cá ando a ver se dô posto aquilo no YouTube e o YouTube béque-me nã quer arreceber tal coisa.

De manêras que, vô-me pertando com esse tal do YouTube a ver se dô fêto alguma coisa dele, e, tã penas tudo teja arredondado, logo ponho aqui as ligaçons pa mecêas darem ido lá ver.

Os retratos já nos podem ver. Acalquem aqui na Galeria da Noite de Reis, fazendem favor.

E fecamos pre qui. Passem todos munto bem, com um ano intêro chêo de saúde e ôtras coisas boas e até qu’ a gente se veja.