Arco-da-velha

Sabe o que é um arco-da-velha?

Arco-da-velha, é como se designa arco-íris no linguajar monchiqueiro.

Dizia-se, e era convicção de muitas pessoas da região, que se alguém conseguisse chegar ao ponto onde o arco-da-velha tocava no chão sem que este desaparecesse, encontraria lá enterrada uma panela cheia de moedas de oiro.

Embora alguns dos nossos conterrâneos tenham enriquecido sem que para tal houvesse uma explicação plausível, nunca constou que o tenham conseguido por este meio. Mas sempre ouvi dizer que alguns teriam encontrado panelas com esse tipo de moedas enterradas em paredes de casas antigas…

Veja um arco-da-velha ou arco-celeste na fotografia abaixo, mas pode consultar estes e muitos mais termos que fazem parte da cultura oral da Região de Monchique, adquirindo a 2ª edição do Glossário Monchiqueiro. Faça a sua encomenda pelo email refoias@gmail.com ou telemóvel 933 204 852. Ou ainda por mensagem privada no Facebook: https://www.facebook.com/refoias.

Arco-da-velha ou arco-celeste

Dia da Espiga 2011


Dia da Espiga 2011 MonchiqueA mêo da manhã, lá abalí caminho do Barranco dos Pisons com a famila da Junta…

Mái uma Quinta-fêra d’ Às-sunção, mái um Dia da Espiga. E quem é que nã havera d’ ir pô coçáiro num dia destes?!… Atã ele até é o feriado cá do nosso concelho… E digam-me lá se nã foi uma coisa bem pensada? À uma, que sempe tevemos este questume – quer-se dezer, más as melheres quos homens… – de s’ ir prí panhar flores pa fazer o Ramo da Espiga. À ôta, calha sempe ô dia de semana – quinta-fêra…

Dezia-me o parente Tóino Rabaça, uma tarde destas, – foi demingo passado – àlém no adro da igreja, contando-me que a melher dele, a parenta Larinda do Tòjêro, tã penas chigô a casa, nessa tarde de quinta-fêra, assim pindurô o Ramo da Espiga pe trás da porta da antrada e aventujô o ôtro que lá tinha do ano passado:

– Se nã fosse isso, cmé quma pessoa, despôs, tinha saúde, sorte e fartura tôdô ano?…

– Pôs, pôs… E alegria, tamém. E o qué qua gente fazia, em se vendo aflitos premode os trovons?…

– Inda más essa. É qu’ aquilo, em fazendo trovons, uma pessoa quem-ma um pèzinho daqueles – prexempes, um coisinho d’ olvêra – e já nã cai nenhum prigo adonde a gente teja…

Dia da Espiga 2011 MonchiqueE ia tudo munto advertido…

– Tal e qual, parente. Sem tirar nem pôr, foi o que se dé com-migo, inda este enverno. Uma ocasião, já bem de nôte, vem um trovão, ôvi-se aquele grande barrano, a minha Larinda, qué do mái medroso que possa ser e haver, panhô uma rabana tã grande ó tã pequena, abala a fugir da cama drêto à casa de fora, nã tardando nada, já ê cá me chêrava a chamusgo…

– Quem-mô-se nalguma brasa do lar ó o prigo tinha caído lá?…

– Nã senhora, parente!… Foi bescar a caxa de forfes, puxô fogo ô Ramo da Espiga, aquilo tava já bem munto seco, alô im menes de nada…

– Atã dé fim dele todo logo duma assantada…

– Olhe, quái que dava… Mái, dezer a verdade, ê cá tamém m’ alevantí logo atrás dela, dí-le uma manita e inda le salví uns qontos panascos…

– E os trovons, parente? Desparceram ó quem?…

– Inda soô ôtro, bem forte, ali pô perto, mái a gente usa tamém a pedir logo à Santa Bárba e demos im ôvi-los lá mái pô longe…

– Santa Bárba bendita, que no céu tá escrita e na terra abençoada…

– Foi isso mémo, parente Refóias. Foi isso mémo… Aquilo, a santa Bárba, é uma santa que nunca falha. Em havendo trovons, reze-le sempe a oraçanita dela. E veja lá se já alguma vez me caíu algum prigo im cimba da minha casa. Nunca!…


Dia da Espiga 2011 MonchiqueDora im qonto, panhava-se mái uma florzalha pa compôr o ramo…

– Atã, daquela vez que mecêa inda morava lá na Chã da Mula Velha, nã se dé uma coisa dessas? Deziam paí, béqueme, que tinha caído lá um prigo…

– Mái nã foi im riba da casa, parente… Foi numa sobrêra que tava lá quái no bico do cerro, uma bela sobrêra, más inda era longinho do mê monte. Uma coisa assim c’m’ daqui àlém a S. Roque. Mái estramecé tudo, nã cude…

– Numa sobrêra, parente Tóino? Mái, atão, ê cá tinha idéa que foi num madronhêro…

– Eh’q!… Sósse caíu mái algum im tempos quê cá inda nã morava lá. A sobrêra até fecô toda arrachada e perdé-se e tudo… Aquilo antrô-le pro bico, vêo pro tróço abaxo im parafuso e meté-se pra terra adrento, veja lá…

– E a sobrêra caí logo fêta im fanicos?…

– Nã… Ela arrachô d’ alto a baxo, fecô com a corcha toda descolada do tróço, mái levô inda um belo tempo a cair pô chão. Premêro, secô-se. Despôs, passados aí uns três ó quatro envernos é quo tróço fecô todo podrido e ela amajulô no chão.

– Pro jêto, aquilo era um sito munto dado a essa coisa dos trovons…

– Ora se era!… Eles, béque-me, até atraíam lá. Havia quem dezesse que, drento do cerro daquela banda de lá, logo preciminho da pôça da Córga Alta, havia umas pedras que tinham azôgue e, atão, os trovons acudiam lá tôdes…


Dia da Espiga 2011 MonchiqueA mê do caminho, ó pôco más, já ele havia quem tevesse uns ramos mái vestôsos que sê cá o quem…

– Mái, voltando ô que se tava a falar, que tal achô a festa lá no Barranco dos Pisons?…

– Cá pra mim foi do melhor. Ali a mê da manhã, meti-me na camineta da Câmbra, levaram-me até lá, já a minha Larinda tamém lá tava que tinha ido a pé com a famila da Junta pa arrenjar o tal Ramo da Espiga. Ôvi a missa lá à rés do barranco, assantado numa pedra, e despôs, inchi o bandulho com umas guelosêras que tavam lá praquelas menzas…

– Pôs… Ele era frango assado, panito do casêro, bolo de tacho e prí fora… Pa nã falar numas garrafinhas que tamém lá tavam…

– Cale-se aí, parente!… Vinho, melosa, aguardente… Cada qual apresentava o melhor que tinha. Ê cá proví umas qontas, más aquela do ti Costa… Ai a do ti Costa!… Homem marafado!… Aquilo nem se sintia às goélas abaxo…

– Era da boa, sa senhora, quele tamém me dé um calcesinho e sôbe-me que nem ginjas. Más ê cá tava mái afalcoado que vomecêa quê tamém fui à pata désna da Vila até lá, atrás da famila da Junta.

– Nã tevesse sido parvo. Fosse com-migo na camineta que nã se pagava nada… Se tava com medo de pagar belhete, já sabe que a Câmbra nã leva nada. É tudo de graça.

– Lá tá mecêa!… Nã foi lá premode isso. Ê cá é que gostí d’ ir assim a pé. Bem sabe qué uma coisa quê gosto de fazer é andar…

– E que tal?


Dia da Espiga 2011 MonchiqueA Missa Campal, tá bom de ver, é tôdes anos no mémo sito…

– Ora… Foi do melhor. A lonjura nã era munta, a companha era boa, aquilo, a maior parte da famila era mulherio e môces-pequenes – aqueles meçalhos fardados de calçanitos e camisa v’rde-negra…

– Ah, os escutêres…

– Sa senhora. E já sabe cmé qué o mulherio. Vai sempe tudo na galhofa… Era a ver qual é que se apresentava com o Ramo da Espiga mái bonito. E olhe que parceram lá algumas que saberam compor aquilo muntíssemo de bem…

– Parente, nã conhêce aquele ditado que diz que ‘quem sabe da luta é quem na labuta‘? E elas é que lidam com flores é que sabem compor o Ramo…

– Tá bem visto… Já há bem munto tempo quê cá nã ôvia essa. Tamém vomecêa sabe buber umas boas copadas d’ aguardente. Toda a vida panhô madronho e estilô…

– E mecêa, não?!… Olhe que lá nesse dia, ê bem no vi já com olhes tôdes pisques e a rir e mangar c’m’ nã é sê questume…

– Isso é que tava sastefêto…

– Ê bem vi que tava. E sê munto bem o perquém. Foram aqueles calcesinhos dela que mecêa imborcô lá da do ti Costa, masturada com a dôtres amigos que tamém levaram umas garrafinhas da deles…

 – Nã diga isso, parente Tóino!… Inda alguém cuda paí quê cá sô algum relaxado…

– Nã digo tanto. Mái que mecêa, parente Refóias, já tava um coisinho escorvado, nã diga que nã tava…

 – Alguma vez?!…


Dia da Espiga 2011 MonchiqueÀ hora das sopas, parêce sempe alguma coisinha pa se dar ô dente…

– Atã e despôs, naquele estado, cmé que dé voltado pa casa?…

– Nã goze quê cá nã tava escarado. Vá lá que tevesse, assim, um coisinho pô antrado… Más, olhe, despôs daquilo tudo, tive lá um amigo bom que me vê trazer à porta de casa. Calhô-me mémo ô queres. Nã tive que tar à espera da via da Junta nem de me pôr a andar ôta vez a pé…

– Quem é ruim, tem sempe sorte…

Pronto, mês belos amigos, foi assim a minha Quinta-fêra d’ Às-sunção, mái conhecida pre Dia da Espiga.

Querendem ver retratos e videos, vã à internet ô Parente da Refóias.

E, fiquem-se com Dés.

Periquito-de-colar (Psittacula krameri)

Para ver o slideshow, clique na imagem, se faz favor.

O Periquito-de-colar (Psittacula krameri) é uma das raras aves da família dos periquitos e papagaios existente em liberdade na Europa.

Proveniente da Índia e de África como animal de estimação, é consensual que o seu desenvolvimento pela Europa fora se deve ao facto de alguns exemplares se terem escapado do cativeiro das gaiolas e adaptado ao novo habitat, reproduzindo-se de tal forma que, atualmente, se julga existir uma população aproximada dos cem mil exemplares, tendo no Reino Unido o seu núcleo mais numeroso.

Em Portugal também é avistado regularmente de norte a sul do país.

Como se pode confirmar nas fotografias deste slideshow, obtidas muito recentemente, é uma ave muito bonita e sociável, agradável de observar e com a qual dá gosto interagir.

As Pedras da Picota (sienito nefelínico) 2011

 Verdade se diga, a Serra de Monchique tem sido Mãe da gente tôdes…

– Falando da Picota, ele andam prí uns zum-zuns que há quem quêra fazer p’ àlém mái umas pedrêras…

– E é bem verdade, sa senhora. Premode isso, ontordia, dí-me ô trabalho e fui ali à Caxa Agrícola, a uma runião qu’ eles fazeram pa falarem desse caso.

– Atã e nã me disse nada?!… S’ ê cá sabesse, tamém tinha ido…

– Olhe, ti Zé – era o ti Zé da Côrcha a falar com-migo – nã me leve a mal más ê cá tamém nã sabia. Calhô foi a ir nesse sábedo, despôs do almôce, até ali ô alto da Praça e dar de frente com o parente Zé Caçapo na conversa com o mê compade Jôquim do Barranco.

– E o qu’ é qu’ isso tem?!…

– Pere aí qu’ ê já le digo.

– Já tá a enventar…

– Que jêto?!… Os homens vinham tã emprensados na conversa um com o ôtro, com uma latomia qu’ ê cá até cudí que tinha morrido alguém da famila… Olhe, nem deram pre mim…

– E iam pá Caxa Agrícola?

Os que tavam contre eram más cos ôtres…

– Nã senhora. Iam a tramelear a respêto dessas tás pedrêras que vomecêa falô inda agora.

– Ah, atã eles tamém tinham ôvisto dezer alguma coisa a esse respêto…

– Pôs tinham. Mái nã se davam era intendido os dôs. Um que toma, ôtro que dêxa e cada qual clamava pre sê lado.

– Atã e despôs?

– Despôs, tive qu’ ir, assim, drêto a eles, dar um incalhão no ti Zé Caçapo – o Verruma, le chama a gente – e foi cmo eles deram notiça de mim. E, aí, meti-me tamém na conversa e foi qondo eles me dezeram que, dali a um coisinho, ia haver essa tal runião na Caxa.

Voltí-me pra eles:

– Atã e sa gente fosse tamém ver o qu’ é qu’ os homens têm lá pa apresentar?…

– Tá bom de ver qu’ o ti Caçapo disse logo que sim. Agora o sê compade nã sê, nã sê… O homem, béque-me, tem medo desses sitos…

– D’zer a verdade, o mê compade é assim pô vergonhoso mái, méme assim, nã se fez munto fêo. E lá abalamos.

-Atã e que tal?

Assantados à menza tavam lá uns dôtores. O da ponta de cá nã tava lá munto sastefêto, nã senhora…

– Ora… É o de c’stume. Tavam uma remessa deles assantados numa menza, tudo dôtores, a darem a lição e os ôtes, cmá gente, da banda de cá, assantados cada qual na su cadêrinha, à escuta do qu’ eles deziam.

– E falaram bem?

– Falar, falaram. Más aquilo era assim: os de cá de Monchique eram, béque-me, tudo contre. Ó se nã eram tôdes, faziam de conta. Os que nã eram de cá, punhana!, era tudo a favor…

– Atã, marafaram-se uns com os ôtes… Ai, logo ê cá nã ter ido!…

– Pere aí, ti Zé, qu’ isso nã foi bem assim. Inda hôve pa lá uma quesilha com o senhor Presidente e um dôtor que vêo, calculo ê cá, de Faro, mái aquilo nã teve dúveda. Agora lá com uns estrangêros que se metiam no mêo da conversa dele é qu’ a coisa teve que se le dezesse.

– Ah, tamém tavam lá estrangêros… E o qu’ é qu’ eles têm que se meter no caso?…

– Têm. Atã nã vê, eles moram já bem muntos àlém pre aqueles charazes. Té le digo más: tavam lá mái estrangêros a ôvir aquilo do que memo cá dos nossos. E fique sabendo, eles inda eram os que tavam mái inrèxados com aquilo tudo. Levaram lá uns cartazes e tudo…

– Pa impertenecerem os ôtes?

O senhores Presidentes da Assemblêa Menicipal e da Cambra tamém lá tavam assantados…

– Sa senhora, ti Zé. Pa dezerem que sã contre.

– E lá esses tales dotôres nã se emportavam?

– Ai nã s’ emportavam… Aquele qu’ ê cá disse que vêo de Faro chigô a um ponto que tava tã infèzado, tã infèzado, qu’ ê cá vi jêtos dele abalar porta fora. É que havia lá umas alemôas que, dora im qonto, nem no dêxavam abrir pio…

– Atã e que jêto a famila nã querer dêxar eles tirarem as pedras de lá da Picota? Aquilo fazia algum mal? Só a mim ninguém me tira as que tã lá interradas nos mês cantêros. Qondo calha, dô-le com cada inxadada qu’ até faz faísca…

– Ó ti Zé, nã sã pedras dessas, home… O qu’ eles querem é arrencar aqueles moledos munta grandes que há debaxo do chão, c’m’ fazem ali na Nave. Pa blocos e brita e essas coisas todas…

– É da manêra que arrenjam sito pa muntos trabalharem…

– Sê cá se é pra muntos se é só pa mêa-dúiza qu’ eles trazem logo lá dadonde são? Desem-magine-se qu’ isto agora é tudo fêto com maquinaria…

– Mái sempe hõ-de dêxar cá alguma coisa. Vã ôs cafés, ôs restairantes…

Inda assim, ajuntõ-se uma bela famila lá na Caxa pôs ôvir…

– Isso hã-de ir. Atã e o resto? O mal que fazem?

– O qu’ é qu’ eles fazerã p’ aí assim de tã ruim?

– Olhe, à uma, estafajam a Serra toda que nã se pode olhar pa ela, à ôta, escalavardam aí as estradas adonde passam com esses camions carregados com um peso de bruteza…

– A Cambra logo as arrenja…

– Com que dinhêro? Atão eles vã pagar os impôstos é lá adonde eles pertencem… Nã sê se sã de Lisboa, se do Porto, se dadonde são…

– Disso nã intendo nada…

– E ôta que tamém tem que se le diga…

– Inda más?!…

– E a pòzêra pa quem mora lá ô pé e samêe lá umas batatinhas, um melhinho, umas bejoarias e tenha umas arvezinhas pa c’mer uma frutinha im chigando o tempo dela?…

– Isso aí é que já é pior… Se me estragam uns albricoques qu’ ê cá tenho ali que sã uma lindeza, má da volta…

– E há munto mái coisas, nã cude. O qu’ é que tá agora aí a amentar tôdes dias?

Posto qu’ a maior parte dos que tavam lá eram estrangêros. E danados qu’ eles eram…

– Sê cá?!… O preço das coisas…

– Atã nã é os turistas? Mòrmente aqueles que gostam de andar à pata aí pre essas veredas? Esses nunca mái àlém põem os pés, fique sabendo…

– Sabe-se lá… E isso já fecô memo resolvido eles fazerem essas pedrêras?

– Nã fecô, nã senhora. Eles, agora, só querem é que os dêxem fazer prí umas exprementaçons a ver se a coisa vale a pena. Despôs, logo se vê. Más sabem eles já, nã cude…

– Ah, isso, é mái que certo qu’ eles já sabem muntíssemo de bem o que le vai no sentido…

– Atão, aprecate-se que, daqui pre dôs ó três anos, vai haver novas. Assim ê cá m’ ingane…

Mês belos amigos, pensem vomecêas tamém no caso e, em havendo mái alguma runião, vamos lá tôdes e cada qual que digo aquilo que acha bem ó mal. E logo se vê…

Dés le dê saúde a tôdes.

Apultana

Sabe o que é uma apultana?

Uma apultana, no linguajar monchiqueiro, é o conjunto de ás, duque e terno do mesmo naipe, no jogo dos Três Setes.

O jogador que tenha esse conjunto e o declare à mesa antes de começar a jogar, ganha de imediato três pontos.

Essa declaração chama-se acuso e aplica-se também para quem tiver três ou quatro ases, três ou quatro duques e três ou quatro ternos, beneficiando, nesse caso, de três ou quatro pontos de acordo com as cartas que tiver e declarar.

Veja apultana e acuso nas fotografias abaixo, mas pode consultar estes e muitos mais termos que fazem parte da cultura oral da Região de Monchique, adquirindo a 2ª edição do Glossário Monchiqueiro.

Apultana

Apultana de oiros

 

Acuso

Acuso de três duques

Abelhão (Bombus terrestris e Bombus lucorum)

 

Abelhão (Bombus terrestris)

O Abelhão  (Bombus terrestris), Mamangaba para os brasileiros, é uma abelha amigável de maiores dimensões do que a abelha vulgar.
Apesar do seu tamanho, não consta que alguma vez tenha molestado alguém. Pelo menos, que eu saiba.
Tem uma vivência relativamente solitária e desenvolve-se em pequenos agregados que, ao que dizem, nunca excede os duzentos indivíduos.
Seria interessante escalpelizar o seu relacionamento social mas não cabe aqui contar essa história. Fica para outra oportunidade…

Abelhão (Bombus Bombus lucorum)

Carriça (Troglodytes troglodytes)

A Carriça (Troglodytes troglodytes) é uma das mais pequenas aves que temos na nossa avifauna, pois não excede os 10 cm de comprimento.

O seu nome científico designa-a como habitante das cavernas, certamente porque tem o hábito de andar metida em buracos e lugares escusos na caça a artrópodes de que se alimenta.

Todos a conhecemos, no mínimo, pelo seu canto, simultaneamente melodioso e estridente, pois, nos seus tempos livres, não faz outra coisa que demonstrar os seus dotes musicais, pousada num qualquer lugar fresco e protegido.

É o macho que constrói o ninho para o oferecer à sua amada como dote. Ou melhor, constrói vários e dá-lhe a escolher. Ela decidirá segundo as suas preferências…

Carriça (Troglodytes troglodytes)

Abrulho

Sabe o que é um abrulho?

Um abrulho, no linguajar monchiqueiro, é um grelo ou gomo.

A palavra é habitualmente utilizada para designar os grelos das batatas mas também se usa para os gomos de qualquer planta quando no seu início de rebentação.

Veja abrulhos duma batata na fotografia abaixo, mas pode consultar este e muitos mais termos que fazem parte da cultura oral da Região de Monchique, adquirindo a 2ª edição do Glossário Monchiqueiro.

Abrulhos
Abrulhos

Flores de Azálea

Todas estas flores pertencem a plantas designadas genericamente por Azáleas e convivem entre si num pequeno parque (Cannizaro Park) nos arredores de Wimbledon, UK.

São da família da nossa ‘Adelfa’ (Rhododendron ponticum subsp. baeticum) que é endémica da Península Ibérica. Em Monchique, como todos sabemos, existe em pouco mais do que uma pequena área do cimo da Fóia e Picota.

O Banho do 29 (2010)

No Banho do Vinte Nove, premêro, rapimpamos-se com o decomerzinho qu’ a gente leva…

Este ano ninguém teve desculpa pa nã ir ô Banho do Vinte Nove. Carruaja havia com fartura qu’ a Junta e a Cambra trataram disso c’m’ fazeram ôs ôtes anos; o tempo tava do melhor, amoroso qu’ até dava gosto, que nem uma arajazinha se sintia. E, méme que muntos digam qu’ isto tá mau, qu’ a coisa tá ruim, eles inda vã p’ aí pagando as reformazalhas à famila… Que jêto a gente nã s’ ir advertir?!…

Foi o qu’ ê cá fiz más a minha Maria e uns tantos amigues. E nã dí o tempo pre mal impregue. Nem ê cá, nem eles. Eles, dig’ ê cá, qu’ a maior parte era elas. E elas, c’m’ mecêas sabem muntíssemo de bem, quái sempe, inda são mái danadas pá galhofa do qu’ ôs homens. E pôs que nã querem crer, olhem bem pôs retratos qu’ ê cá tirí e pôs filmes qu’ a minha mánica tamém fez que logo veem s’ a rezão tá do mê lado ó se nã tá…

D’zer a verdade, já ia pa uns dôs anos qu’ ê cá nã punha lá os pés. Nã que nã goste d’ ir, mái atão as coisas nem sempe calham a nosso favor… Olhem, o ano passado, nã sê se fui ê cá se foi a minha Maria – ó saria-se os dôs… – tava-se com uma catarrêra que nem pensar em im largar o monte. De manêras que f’camos pre qui. E há dôs anos, se nã tô atribuído, o tempo béque-me tava chuvoso que nã dé pa se fazer nada de jêto.

… muntas das vezes, méme p’ à famila da alta, até umas papas com temates dã jêto. E sâ guestosas, nã cudem…

Más olhem, desta vez, as coisas correram-me tã bem, tã bem que nem tampôco tive precisão da via da Cambra… Nas béspras, ó pa melhor d’zer, quái uma semana entes, tive logo aqui a oferta dum amigo que me levava a mim e á minha Maria e más os mês compadres. Foi o parente Cosme da Quinta.

Tá bem qu’ a via dele, uma camineta de caxa aberta, é já um coisinho usada – ora usada… tá quái fêta num caneco!… – e nã é lá gande coisa pa um serviço destes, mái c’m’ àquilo era pa s’ ir de nôte, tapados com o incerado qu’ ele tem lá, e a Guarda, a essas horas, calhando, eram capazes de tar a comer qualquer coisinha e nã andarem aí na estrada a charingar um e ôtro, pegamos na gente e foi-se tôdes. E inda mái uma pagela deles…

Iam tantos c’m’ dez amalhòfados debaxo desse tal incerado. Tirando o chòfer, o compade Jôquim do Barranco e a c’made C’stóida – qu’ esses, foram na cabine más a minha Maria – era ê cá, o Adelino da Desmoitada, um gozão do pior, o Arraúl Vàlise, que teve na França, o ti Luís Agúida, que tem um mata-velhos mái nã anda de nôte que tem medo, o Martinho do Almarjão, alomeado pre Pata-Rasa, o Tóino Luzicuco, sempe de cigarro na boca, o parente Zé Caçapo, Verruma le chamam, sempe a sovinar, e fico-me pre qui qu’ os ôtes iam tôdes acuados ô canto do taipal e já nem m’ alembra bem quem eles eram…

… bebe-se-le, tamém, um calcesinho dela. Da boa, tá bom de ver…

Nôtes tempos, nã era nada disto. O mái que se podia arrenjar era um carro de besta com uns sês ó sete lugares, nã contando com o carrêro. Quem nã t’vesse carro de besta ó d’nhêro pô alugar, qu’ era o que se dava com quái tôdes, ia a pé ó, calhando a terem um burro na arramada, amontavam-se nele, à vez, e passadas umas quatro ó cinco horas, chigavam o sê destino deles, na Praia do Vau.

Mái nã cudem, lá p’r isso, a galhofa nã f’cava nada atrás do qu’ a famila faz hoje im dia… Mái pra más do que pra menes. Nã veem, é qu’ ir désna de Monchique – levem bem repáiro que d’zer Monchique é o mémo que falar na Serra toda; é o concelho duma ponta à ôta – até à Praia do Vau de carro de besta ó a pé inda levava umas belas horas e a famila tinha qu’ ir logo adiantando algum serviço…

De manêras que, ia-se andando e c’mendo. Uns pexinhos da horta, uns coisinhos de chôriça, uma felhòzinha, umas coisinhas assim… E pa impurrar isso tudo pas goélas abaxo e nã imbassar, o qu’ é qu’ uma pessoa podia fazer?… Tá claro, bubia-se-le uns porrêtes… Ora aquilo dava cá uma enfluêinça!… Nem o caminho custava a andar…

… charola-se e balha-se um belo pôcachinho pa desmoer a pelharcada…

Esta conversa fez-me vir à idéa o que se dé desta vez. O Tóino Luzicuco, sempe com a mania do fumar, que nã pode passar, tava-se a gente tôdes munto bem sa senhora boa vida amalhòfados debaxo do incerado, puxa da su onça ‘Águia‘ dele e do sê livro de papel béque-me da méma marca, tira uma mortalha, despeja-le um coisinho de tabaco pa drento e vá d’ inrolar. Pensí cá pra mim:

– Nã me digam qu’este saganheta vai-se pôr a fumar aqui mémo num sito destes…

Inrolô, inrolô… passô-le cuspinho com a língua na ponta da mortalha, deslizô-le o dedo duma ponta à ôta p’ àquilo colar, dé umas batidinhas com a ponta do cigarro na unha do dedo grande – há quem le chame o mata-piolhos… – e pôse-o na boca. Inda ramordí cá pra mim:

– Eh’q, aquilo, calhando, é só pa ele matar o viço e nã no acende… Senã a gente inda cuda de morrer aqui com falta d’ ar e desata tudo a tossir.

Qual o quem?!… Tã penas olho ôta vez pa ele, já o marafado tinha tirado uma caxa de forfes da alsebêra e toca de puxar um forfe pô acender. Mái, às escuras, o Tóino nã fechô bem a caxa. Ora, nesse mê tempo, o parente Cosme teve que fazer uma travaja a fundo… Só mái tarde é que sube que se l’ atravessô um bicho na frente da camineta… Ele bem qu’inda riscô o forfe, sa senhora, e acendeu-o, mái atão, com o balanço, os ôtes desparceram tôdes da caxa… Desata tudo numa risada:

… e só despôs é que s’ afituramos a ir pa drento d’ água…

– Ai Tóino que lá se foram as tuas acendalhas todas!… E, calhando, o cigarrinho tamém…

– Nã queria mái nada!… O cigarrinho tá aqui na boca e este forfe inda tá im chama. Dêxa-me lá acender o cigarro entes qu’ ele s’ apague…

– Olha lá nã sabes que nã é atorizado fumar im sitos fechados?!… Nã vês qu’ isto aqui é c’m’ se fosse lá na venda do Alferce… Eles lá dêxam-te fumar?…

– Nã vejo aqui nenhum papel na parede a d’zer o contráiro. De manêras que nã se ponha com coisas. Más a más qu’ o sito é bem arejado…

E pôs-se a ver se dava panhado os forfes que tinham caído. Mái atão, com o vento que antrava pa drento do encerado com o andar da camineta, adonde é qu’ eles já tavam… Nem um…

– Bem fêta, qu’ é p’ à ôta vez respêtares. E, agora, munto bem me calhava qu’ o vento tamém te levasse o cigarro da boca…

E dí uma piscadela d’ olho ô ti Zé Caçapo. Ele, pre alguma rezão le chamam o ‘Verruma’, intendé logo, vai assim p’ trás do Tóino Luzicuco, c’m’ quem nã quer a coisa, dá-le um toque de lado com uma mão, ele volta a cara, ô méme tempo, dá-le ôtro toque no cigarro com a ôta mão, lá vai ele pros ares…

Otra risada im forte… Más aí, o Tóino f’cô um coisinho sintido e desatô a d’zer alarvidades. Se nã é o ti Zé Caçapo ser um homem duma certa idade, nã sê nã sê… Inda vi jêtos do Tóino se jogar a ele. Mái a coisa lá atamancô e, dali a um nadinha, tava-se a chigar à Praia do Vau.

… ô fim, volta-se p’ra casa, tôdes sastefêtes, com a trugia toda às costas…

Do que se passô lá méme na arêa da praia já mecêas hã-de saber. Foi tudo munto advertido, a famila incheu tudo o bandulho até mái não. De coisas pa buber, só f’cô lá a água do mar. Quái tôdes balharam, cantaram e uns tantos que t’veram mái fôiteza sempe se jogaram à água pa se lavajarem e p’ à SIC filmar.

Só o que les sê d’zer é que inda pus os caguetes tamém drento d’ água e, d’zer a verdade, nã na achí munto fria, mái c’m’ à minha Maria se tinha desquecido da toalha im casa e as cirôilas qu’ ê cá levava eram novas nã me dava jêto molhá-las logo, só cheguí com a água pros artelhos. Mái hôve menino que antrô lá pa drento e quái que já nem queria sair. Ôtes, atão, insiavam-se duma tal manêra qu’ ê cá até os ôvia méme ali à babuja. E, no mêo daquilo tudo, inda béque-me hôve lá um que vinha a arrabolar inrolado numa onda…

Querendem ver videos e retratos do que se passô lá, vã ô Parente da Refóias na internet.

Dés le dê saúde.